O Brasil está ampliando sua capacidade de produzir etanol, mas uma questão precisa acompanhar esse crescimento: quem vai consumir toda essa produção?
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira deve alcançar 41,88 bilhões de litros na safra 2026/27, crescimento de 11,7% em relação ao ciclo anterior. Desse total, 11,91 bilhões de litros deverão vir do milho, avanço de 17%. O movimento demonstra a força dos investimentos no setor, mas também reforça a necessidade de avaliar como a demanda acompanhará essa expansão.
O crescimento já aparece na estrutura industrial. Em levantamento utilizado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), com referências de 2025, o Brasil contava com 30 unidades de processamento de milho para etanol, sendo 19 dedicadas exclusivamente aos grãos e 11 usinas flex, que combinam cana e milho. A capacidade conjunta era de 11,6 bilhões de litros anuais.
O estudo também considerou, nos cenários de crescimento médio e baixo, a implantação de outras 16 unidades de etanol de milho, além de projetos com outros cereais. São empreendimentos contemplados no planejamento, não uma confirmação de que todos já estejam autorizados ou em construção.
Mas o crescimento da oferta não significa necessariamente excesso de produção. No Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, a EPE projeta que a oferta brasileira de etanol poderá alcançar aproximadamente 51 bilhões de litros em 2035, enquanto a demanda de etanol combustível chegaria a 48,2 bilhões. Esses números indicam possibilidade de expansão do mercado, mas dependem das condições econômicas, dos investimentos e das políticas públicas consideradas nas projeções.
Uma das maiores oportunidades está justamente na frota que já circula no país. Segundo a EPE, aproximadamente 79% dos veículos leves brasileiros são flex, mas a escolha pelo etanol hidratado ainda depende fortemente da relação de preços com a gasolina. No cenário de crescimento médio, o estudo projeta que a participação volumétrica do hidratado no abastecimento dos veículos flex passe de aproximadamente 39% em 2026 para 52% em 2035.
Essa mudança permitiria um crescimento de cerca de 7,1 bilhões de litros na demanda de hidratado, enquanto o consumo de gasolina C recuaria aproximadamente 4,4 bilhões de litros. Existe, portanto, um potencial expressivo de consumo sem depender exclusivamente da criação de novos mercados.
A eletrificação dos veículos também precisa ser considerada, mas sem conclusões precipitadas. A EPE projeta que os eletrificados representarão aproximadamente 23% dos novos licenciamentos de veículos leves em 2035, mas apenas cerca de 8% da frota circulante, principalmente por causa do tempo necessário para renovação dos veículos. Parte desses modelos será híbrida e poderá utilizar motores flex.
Assim, a eletrificação tende a transformar gradualmente o mercado, mas não significa o desaparecimento da demanda por etanol na próxima década.
Além dos automóveis, novos mercados começam a ganhar relevância. O etanol pode ser utilizado como matéria-prima para a produção de combustível sustentável de aviação (SAF), pela rota Alcohol to Jet, e também apresenta possibilidades no transporte aquaviário.
Nos cenários médio e baixo, a EPE estima uma demanda de aproximadamente 900 milhões de litros de etanol para produção de SAF e 65 milhões de litros para uso aquaviário em 2035. São oportunidades importantes, mas ainda dependentes de investimentos, tecnologia, regulamentação e condições comerciais para ganhar escala.
É nesse ponto que as políticas públicas assumem papel decisivo. A competitividade do etanol não depende apenas da eficiência das usinas, mas também da tributação dos combustíveis, da infraestrutura de distribuição, das metas de descarbonização e do reconhecimento das emissões ao longo de todo o ciclo de vida.
O Brasil desenvolveu, durante décadas, uma cadeia produtiva capaz de oferecer uma alternativa renovável aos combustíveis fósseis. Preservar essa competência exige segurança regulatória e políticas que permitam ao etanol competir, ao mesmo tempo em que outras tecnologias avançam.
A expansão industrial representa uma oportunidade para o país, mas também aumenta a responsabilidade de planejar o futuro do setor. Não basta saber quanto etanol conseguiremos produzir. Precisamos compreender quanto o mercado será capaz de consumir, em quais condições e com que rentabilidade.
A resposta passa pelo fortalecimento do consumo na frota existente, pelo desenvolvimento de novos mercados e por decisões estratégicas que garantam sustentabilidade econômica aos investimentos.
Afinal, transformar capacidade produtiva em resultado depende de planejamento, gestão, inovação e das pessoas que fazem a indústria acontecer.

Executiva do Setor Sucroenergético. Analisa os desafios da indústria a partir da experiência de quem vive a operação.
@milenarochaoficial



