A parceria entre a gigante alemã Bayer e a finlandesa Neste marca um novo capítulo na estruturação de cadeias de fornecimento de matérias-primas para biocombustíveis nos Estados Unidos. O acordo comercial anunciado pelas empresas tem como objetivo central escalar o plantio de canola de inverno em uma região com potencial ainda subaproveitado: as Grandes Planícies do Sul americanas. A oleaginosa será direcionada prioritariamente à fabricação de diesel renovável e combustível sustentável de aviação (SAF), dois dos segmentos que mais crescem no mercado global de bioenergia.

Aposta em oleaginosa de baixo carbono

O movimento das companhias se justifica pela expectativa de forte expansão da demanda por combustíveis renováveis. Estimativas do setor apontam que o mercado de biocombustíveis pode chegar a triplicar nas próximas duas décadas, atingindo volumes próximos a 40 bilhões de galões até 2040. Nesse cenário, a busca por matérias-primas com menor intensidade de carbono torna-se estratégica, e a canola de inverno surge como alternativa promissora.

A variedade que será promovida pela parceria é a newgold, desenvolvida pela Bayer. Seu lançamento comercial está previsto para o outono de 2027, e a semente virá equipada com um conjunto de tecnologias voltadas ao aumento de produtividade e adaptação climática. Entre os destaques estão a resistência ao inverno rigoroso, a plataforma TruFlex — segunda geração da tecnologia Roundup Ready — e mecanismos que impedem a abertura prematura das vagens, problema comum em culturas oleaginosas.

Segundo a Bayer, essas características podem favorecer tanto o desempenho agronômico quanto o teor de óleo da cultura, fator determinante para a viabilidade econômica da cadeia de biocombustíveis. A empresa enxerga a canola de inverno como uma opção de rotação com o trigo, permitindo melhor aproveitamento das terras e diversificação de renda para os produtores rurais da região.

Estruturação de cadeia e segurança energética

Além da comercialização de sementes, o acordo prevê a formação de uma rede colaborativa envolvendo outros agentes da cadeia produtiva. A ideia é criar um ecossistema que garanta escoamento da produção e ofereça previsibilidade aos agricultores, elemento essencial para a adesão a novas culturas.

Frank Terhorst, executivo responsável por Estratégia e Sustentabilidade da divisão agrícola da Bayer, destacou que o contexto geopolítico atual reforça a necessidade de maior segurança energética e resiliência nas cadeias de abastecimento. A descarbonização do setor de transportes, aliada a tensões internacionais, impulsiona a procura por alternativas renováveis produzidas localmente.

Para a Neste, que já é referência global na produção de diesel renovável e SAF, a parceria representa um passo importante na diversificação e ampliação de suas fontes de matéria-prima. Artturi Mikkola, vice-presidente sênior de Aquisição de Matérias-Primas Renováveis da companhia, ressaltou que a canola pode ser escalada rapidamente, contribuindo para atender à demanda crescente por biocombustíveis em segmentos difíceis de eletrificar, como aviação, transporte marítimo e equipamentos pesados.

Coprodutos e diversificação de portfólio

Outro aspecto relevante da iniciativa diz respeito aos coprodutos. Além do óleo destinado à bioenergia, o processamento da canola gera farelo com elevado teor proteico, que pode ser comercializado no mercado de nutrição animal. Esse subproduto tem aplicação nas cadeias de bovinos de leite e corte, aves e suínos, agregando valor econômico ao sistema produtivo e tornando a operação mais sustentável do ponto de vista financeiro.

A Bayer não está limitando sua atuação à canola. A empresa também desenvolve outras culturas intermediárias voltadas à produção de biocombustíveis, como camelina e CoverCress. Recentemente, a companhia apresentou sua plataforma de biocombustíveis em evento com investidores no estado de Iowa, sinalizando a intenção de expandir sua presença no fornecimento de matérias-primas para o setor de energia renovável.

Transição energética e papel dos biocombustíveis

A parceria entre Bayer e Neste reforça a visão de que os biocombustíveis desempenharão papel central na transição energética, especialmente em setores onde a eletrificação enfrenta barreiras técnicas ou econômicas. A aviação, por exemplo, depende fortemente de combustíveis líquidos de alta densidade energética, e o SAF produzido a partir de oleaginosas como a canola representa uma das soluções mais viáveis no curto e médio prazo.

Ao integrar inovação genética, tecnologia agrícola e estruturação de cadeias de suprimento, a iniciativa ilustra como a bioenergia avança por meio de parcerias estratégicas que conectam o campo à indústria, gerando benefícios ambientais, econômicos e geopolíticos.