As chuvas acima do esperado em importantes regiões produtoras do Centro-Sul brasileiro estão alterando o ritmo da safra 2026/27 e trazendo consequências que ultrapassam o campo.
Quando a colheita é interrompida, menos cana chega às usinas, a produção industrial perde ritmo e a disponibilidade de açúcar e etanol pode ser afetada.
Em um mercado sensível às condições de oferta e demanda, esse cenário aumenta a preocupação com os preços e com a rentabilidade das operações.
Em São Paulo, maior estado produtor de cana-de-açúcar do país, os efeitos já são observados. Na região de Ribeirão Preto, setembro registrou aproximadamente 100 milímetros de chuva, volume 44% superior à média histórica.
O excesso de umidade dificultou a entrada das máquinas nos canaviais e levou algumas unidades a revisar seus cronogramas, adiando em cerca de 15 dias a previsão de encerramento da moagem.
Em outras áreas do leste paulista, estimativas apontaram perda de aproximadamente três dias de operação na primeira quinzena de outubro.
Os números da produção confirmam a desaceleração. Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o Centro-Sul processou 27,3 milhões de toneladas de cana na primeira quinzena de outubro, queda de 21,3% em relação ao mesmo período de 2025.
A fabricação de açúcar recuou 27,1%, para 1,87 milhão de toneladas, enquanto a produção de etanol caiu 26,1%, para 1,53 bilhão de litros. Segundo levantamento da Platts, as chuvas provocaram o equivalente a 5,6 dias de moagem perdidos na região durante o período.
No acumulado da safra, até 15 de outubro, o Centro-Sul havia processado 509,66 milhões de toneladas de cana, aproximadamente 15 milhões de toneladas a menos que na mesma data do ano passado.
A produção de açúcar atingiu 30,80 milhões de toneladas, queda de 14,6% na comparação anual. Já a fabricação de etanol chegou a 26,45 bilhões de litros, crescimento de aproximadamente 4,3%, impulsionado principalmente pela expansão do etanol de milho.
Somente São Paulo respondeu por 287,60 milhões de toneladas de cana processadas, 19,89 milhões de toneladas de açúcar e 10,03 bilhões de litros de etanol.
Além de reduzir o número de dias disponíveis para a colheita, a chuva pode comprometer a qualidade da matéria-prima.
A umidade excessiva favorece a retomada do crescimento vegetativo da cana madura, podendo reduzir a concentração de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR).
Também aumenta o risco de impurezas, compactação do solo e dificuldades operacionais. Na prática, isso significa que a usina pode processar uma tonelada de cana com menor rendimento industrial, elevando o custo por unidade de açúcar ou etanol produzido.
Outro ponto de preocupação é o volume de cana que poderá permanecer no campo.
Em setembro, a consultoria StoneX revisou sua projeção de moagem do Centro-Sul para 635,3 milhões de toneladas na safra 2026/27.
Considerando essa estimativa e o volume processado até 15 de outubro, ainda seriam necessárias aproximadamente 125,6 milhões de toneladas para atingir o total projetado.
A consultoria estimava que 10 milhões de toneladas poderiam ser processadas em março de 2027 e outras 22 milhões transferidas para a safra seguinte.
A Datagro apresentou uma avaliação mais elevada, indicando que cerca de 35 milhões de toneladas poderiam ficar para o próximo ciclo. São projeções sujeitas à evolução do clima, e não volumes de perdas já confirmadas.
No mercado de açúcar, os efeitos começaram a aparecer nas cotações. No início de outubro, o Cepea registrou valorização do açúcar cristal no mercado físico paulista, associada à menor disponibilidade do produto.
Entretanto, a chuva não determina sozinha os preços. Estoques, demanda interna, exportações, cotações internacionais e decisões sobre o direcionamento da cana entre açúcar e etanol também influenciam o mercado.
Para o etanol, a dinâmica é ainda mais complexa. A expansão da produção de milho ajuda a compensar parte das interrupções na moagem da cana, mas não elimina os impactos sobre a oferta regional.
Além disso, o etanol hidratado concorre diretamente com a gasolina, o que limita sua capacidade de repassar aumentos de custos ao consumidor.
Quando as despesas industriais crescem e o mercado não permite reajustes equivalentes, a consequência pode ser a redução das margens das usinas, comprometendo investimentos e o planejamento das próximas safras.
O desafio, portanto, não está apenas em recuperar os dias perdidos. É necessário avaliar até quando compensa prolongar a moagem, quais áreas ainda oferecem condições adequadas de colheita e quanto da matéria-prima deverá ser transferido para o próximo ciclo.
A chuva é fundamental para a agricultura, mas sua ocorrência fora da janela planejada exige decisões que envolvem produtividade, custos, qualidade e mercado.
E transformar essas condições em resultados depende de planejamento, gestão e pessoas preparadas para fazer a indústria acontecer.

Executiva do Setor Sucroenergético. Analisa os desafios da indústria a partir da experiência de quem vive a operação.
@milenarochaoficial



