O setor de transporte marítimo acaba de registrar um marco importante na adoção de biocombustíveis: a armadora holandesa Maersk concluiu sua primeira operação comercial de abastecimento de navio com etanol. A embarcação Maersk Halifax, que passou por retrofit para aceitar combustíveis renováveis, recebeu aproximadamente 5 mil toneladas do biocombustível no porto de Singapura, sinalizando que a descarbonização do transporte oceânico começa a sair do campo experimental para a realidade operacional.

Retrofit viabiliza transição energética no mar

O navio Maersk Halifax não nasceu preparado para combustíveis alternativos. Originalmente projetado para operar com combustíveis fósseis convencionais, a embarcação foi submetida a um processo de adaptação em 2024 pela MAN Energy Solutions, na China. O retrofit incluiu a instalação de novos tanques de armazenamento, uma área dedicada ao preparo de combustíveis e um sistema completo de fornecimento, transformando o navio em uma plataforma dual fuel capaz de operar tanto com combustíveis tradicionais quanto com alternativas renováveis como etanol e metanol.

Essa adaptação representa uma estratégia importante para acelerar a transição energética no setor naval, permitindo que embarcações já existentes migrem para combustíveis mais limpos sem a necessidade de construir novos navios do zero – um processo que demandaria investimentos muito maiores e prazos mais longos.

Certificação e rastreabilidade do biocombustível

A Maersk informou que o etanol utilizado no abastecimento possui certificação ISCC (International Sustainability and Carbon Certification), que garante a rastreabilidade e a sustentabilidade da cadeia produtiva. Embora a companhia não tenha divulgado oficialmente a origem do produto, fontes do mercado, incluindo a agência Argus, indicam que o fornecimento foi realizado pela brasileira Raízen, uma das maiores produtoras de etanol de segunda geração e biocombustíveis do mundo.

A operação contou com a colaboração da Autoridade Marítima e Portuária de Singapura (MPA) e outros parceiros estratégicos, demonstrando o alinhamento entre iniciativa privada e reguladores para viabilizar a infraestrutura necessária ao abastecimento de navios com biocombustíveis em escala comercial.

Da fase experimental à comercial

Antes deste marco comercial, a Maersk já havia conduzido uma série de testes com etanol em caráter experimental. As embarcações Laura Maersk, Antonia Maersk e Tangier Maersk foram utilizadas em ensaios que avaliaram misturas de diferentes concentrações – 10%, 50% e até 100% de etanol –, todos com resultados positivos. Esses testes foram fundamentais para validar a viabilidade técnica e operacional do biocombustível antes de avançar para a fase comercial.

Estratégia multicombustível para descarbonizar o transporte marítimo

A diretora de mercados de energia da Maersk, Emma Mazhari, reforçou que a companhia adota uma abordagem multicombustível porque nenhuma solução isolada será capaz de descarbonizar todo o transporte marítimo global. "A transição energética exige que exploremos e ampliemos soluções capazes de gerar impacto real", destacou a executiva.

Essa visão reflete a complexidade do desafio de descarbonização do setor naval, que responde por uma parcela significativa das emissões globais de gases de efeito estufa. O etanol, produzido a partir de biomassa, oferece uma alternativa de menor pegada de carbono em comparação aos combustíveis fósseis, especialmente quando proveniente de matérias-primas sustentáveis e processos certificados.

Perspectivas para o mercado de biocombustíveis navais

A entrada do etanol no abastecimento comercial de grandes embarcações abre novas perspectivas para o mercado de biocombustíveis, especialmente para países produtores como o Brasil. Com expertise consolidada na produção de etanol de cana-de-açúcar e avanços em etanol de segunda geração, o país está bem posicionado para atender a demanda crescente do setor marítimo por alternativas renováveis.

A experiência da Maersk pode servir de referência para outras armadoras que buscam cumprir metas de descarbonização e atender a regulações ambientais cada vez mais rigorosas no transporte internacional. O sucesso dessa operação comercial inaugural sinaliza que o etanol não é apenas uma promessa futura, mas uma solução viável e disponível para a transição energética no mar.