O setor sucroenergético fala cada vez mais sobre automação, usinas flex, etanol de milho, digitalização, inteligência de dados e novas tecnologias de processo.
Tudo isso faz parte do futuro. Mas existe uma pergunta menos confortável e talvez tão importante quanto qualquer investimento em equipamento: quem vai trabalhar nessas usinas e garantir que toda essa tecnologia funcione de forma segura, eficiente e contínua?
Esse desafio já começa a aparecer. A falta de mão de obra qualificada é apontada como uma dificuldade por empresas do setor, especialmente em regiões do interior, onde muitas usinas estão instaladas.
Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, governo, entidades e empresas do setor já criaram iniciativas específicas para mapear necessidades de qualificação profissional e preparar trabalhadores para novas contratações.
Em outras regiões, usinas também vêm investindo em programas próprios de formação em parceria com o SENAI, justamente para suprir funções técnicas como mecânica, elétrica e manutenção industrial.
O problema não é apenas contratar mais pessoas. É formar profissionais capazes de compreender operações que estão ficando mais complexas. Uma usina moderna exige cada vez mais conhecimento de automação, instrumentação, manutenção, sistemas digitais, processos industriais e integração entre áreas.
E, à medida que tecnologias avançam, também cresce a demanda por profissionais capazes de operar, interpretar dados, diagnosticar falhas e tomar decisões em ambientes de alta responsabilidade.
Ao mesmo tempo, existe um patrimônio que não pode ser ignorado: o conhecimento acumulado por profissionais que passaram por muitas safras e aprenderam a operação na prática.
Em muitas funções, esse conhecimento não está totalmente registrado em manuais. Ele está na experiência, na capacidade de reconhecer um ruído diferente, antecipar um problema, entender o comportamento de um equipamento e saber como reagir quando a operação foge do previsto.
Se esse conhecimento sair da empresa sem ser transferido, o setor perde muito mais do que uma pessoa.
Por isso, preparar a próxima geração não pode significar apenas oferecer cursos. É necessário identificar quais conhecimentos são críticos, quem hoje concentra esse saber e como ele será transferido.
Isso exige acompanhamento prático, tutoria, exposição a problemas reais, formação em campo e convivência entre profissionais mais experientes e quem está chegando. Programas de capacitação mais estruturados já mostram essa preocupação ao combinar formação técnica com acompanhamento de profissionais internos e possibilidade de absorção dos jovens pelas próprias empresas.
Há ainda um fator geracional. As novas gerações podem não construir carreira da mesma forma que muitos profissionais que estão hoje nas usinas. Permanecer décadas na mesma empresa pode deixar de ser o padrão, o que torna retenção, desenvolvimento e sucessão ainda mais estratégicos. Isso exige repensar carreira, ambiente de trabalho, formação de liderança e oportunidades de crescimento.
O setor precisa não apenas encontrar pessoas, mas criar condições para que elas queiram permanecer tempo suficiente para desenvolver conhecimento profundo da operação.
Esse desafio tende a ficar ainda maior com o avanço de modelos de operação mais complexos, como as usinas flex, que podem ampliar o período de funcionamento e aumentar a demanda por profissionais ao longo do ano.
Especialistas em mercado de trabalho no agro já apontam que esse tipo de transformação eleva a procura por mão de obra técnica e tecnológica em um contexto em que a oferta de profissionais qualificados ainda é limitada.
Por isso, talvez um dos principais gargalos das usinas do futuro não seja comprar tecnologia, mas garantir que existam pessoas preparadas para fazê-la funcionar.
O setor precisa começar essa preparação antes que a aposentadoria chegue, antes que o conhecimento saia pela porta e antes que a dificuldade de contratação se transforme em risco operacional. Formar a próxima geração não é apenas uma questão de recursos humanos.
É uma questão de continuidade, produtividade e competitividade para o setor.

Executiva do Setor Sucroenergético. Analisa os desafios da indústria a partir da experiência de quem vive a operação.
@milenarochaoficial



