A entrada da 3tentos no mercado de etanol de milho promete transformar o perfil de receitas da companhia nos próximos anos, especialmente diante de um cenário desafiador para o processamento de soja. Com a usina inaugurada no segundo trimestre de 2026, a empresa aposta na abundância de grãos em Mato Grosso e nas vantagens de custo da matéria-prima regional para consolidar o biocombustível como um dos pilares de crescimento. Análises do mercado financeiro apontam que a operação pode alcançar margens brutas próximas a R$ 420 milhões em 2027, considerando também a comercialização de coprodutos como DDG (grãos secos de destilaria).

Vantagem competitiva no coração do milho brasileiro

O grande trunfo da estratégia da 3tentos está na localização geográfica e na capacidade de aproveitar os diferenciais de preço do milho em Mato Grosso. Nos últimos três anos, o cereal comercializado na região de Querência apresentou descontos médios de cerca de R$ 175 por tonelada em relação às cotações internacionais da Bolsa de Chicago. Durante a colheita da segunda safra — concentrada entre junho e julho —, esse desconto pode chegar a aproximadamente R$ 230 por tonelada, reflexo da grande oferta local e dos gargalos logísticos que dificultam o escoamento para outras regiões.

Essa dinâmica de preços favorece empresas com capacidade de armazenagem e redes consolidadas de originação de grãos. A 3tentos, que já possui estrutura robusta para compra e estocagem de commodities agrícolas, está bem posicionada para adquirir milho nos períodos de maior disponibilidade e menores cotações, garantindo competitividade na produção de etanol ao longo do ano.

Projeções de crescimento e utilização da capacidade instalada

Para 2027, as estimativas do mercado consideram que a usina da 3tentos processará em torno de 930 mil toneladas de milho, operando com taxa de utilização próxima a 95% da capacidade instalada durante cerca de 350 dias. Esse volume deve gerar um lucro bruto estimado de aproximadamente R$ 1 por litro de etanol produzido, incluindo as receitas provenientes dos coprodutos destinados à alimentação animal.

Já para o terceiro trimestre de 2026, a expectativa é de que a operação contribua com algo próximo a R$ 87 milhões em margem bruta, marcando o início da rampa de produção. As projeções gerais da companhia indicam receita total de R$ 19 bilhões e lucro líquido de mais de R$ 700 milhões em 2026, saltando para R$ 22,5 bilhões e cerca de R$ 960 milhões no ano seguinte, respectivamente.

Diversificação em meio à pressão no complexo soja

A aposta no etanol de milho ganha ainda mais relevância diante das dificuldades enfrentadas pela indústria de processamento de soja. Margens historicamente baixas, custos elevados de fertilizantes — agravados pela alta do dólar e pela dependência de importações — e excesso de capacidade no setor de biodiesel têm pressionado a rentabilidade do segmento. No segundo trimestre de 2026, a 3tentos registrou lucro bruto industrial ajustado de aproximadamente R$ 297 por tonelada processada, com margem bruta de 12,2%, impactada por preços fracos do farelo e do biodiesel.

Apesar dos desafios recentes, analistas avaliam que os fundamentos de longo prazo da empresa permanecem sólidos. A diversificação para o etanol de milho ajuda a equilibrar o portfólio e reduzir a dependência de um único complexo agroindustrial, ao mesmo tempo em que aproveita a vocação natural de Mato Grosso como maior produtor de milho do Brasil.

Oportunidades de comercialização e upside nas projeções

Outro fator que pode elevar os resultados da operação de etanol está na estratégia de comercialização. O biocombustível produzido em Mato Grosso tem potencial para ser vendido tanto em mercados regionais — como Norte e Nordeste, onde os preços costumam ser superiores aos de São Paulo devido a diferenças de oferta e logística — quanto no principal polo consumidor do país, o estado paulista.

Caso a 3tentos consiga direcionar maior volume para destinos com prêmios de preço ou adquirir milho a custos ainda mais baixos do que os considerados nas projeções, a rentabilidade da operação pode superar as estimativas atuais. Esse potencial de upside reforça a atratividade do projeto em um momento de transição para a companhia.

Perspectivas para o setor de biodiesel e regulação

Embora o foco esteja no etanol de milho, o desempenho da 3tentos também será influenciado pela evolução do mercado de biodiesel. O adiamento da elevação da mistura obrigatória para B16 contribuiu para o excesso de capacidade e a compressão de margens em 2026. Há expectativa de que a mistura possa saltar diretamente para B17 em 2027, o que favoreceria a utilização das usinas e a recuperação da rentabilidade, mas essa mudança depende de decisões regulatórias e políticas ainda em discussão.

De qualquer forma, a entrada no etanol de milho representa uma aposta estratégica da 3tentos para diversificar receitas, aproveitar vantagens competitivas regionais e sustentar o crescimento em um ambiente desafiador para o agronegócio brasileiro.