A região do Alentejo prepara-se para receber mais uma infraestrutura dedicada à produção de biometano, consolidando a aposta de Portugal no aproveitamento energético de resíduos orgânicos. O empreendimento, orçado em cerca de €20 milhões, encontra-se atualmente em fase de consulta pública ambiental e promete transformar a gestão de subprodutos da agropecuária e agroindústria numa fonte de gás renovável para a rede nacional.
Valorização energética de resíduos do campo
A futura planta industrial será erguida no Parque Agroindustrial do Penique, em Odivelas, no município de Ferreira do Alentejo, distrito de Beja. A FBG Ferreira do Alentejo, empresa promotora da iniciativa, planeja processar anualmente um volume superior a 69 mil toneladas de matéria orgânica. Entre as matérias-primas previstas estão efluentes e dejetos da pecuária bovina, além de bagaço proveniente da produção de azeite — recursos abundantes numa região marcada pela forte presença agroindustrial.
O modelo de negócio assenta na digestão anaeróbia, tecnologia consolidada que permite a decomposição biológica de resíduos em ambiente sem oxigênio. O resultado desse processo é a geração de biogás, que passará por etapas de purificação e liquefação até se transformar em biometano de qualidade compatível com a Rede Nacional de Distribuição de Gás Natural. A estimativa de produção anual gira em torno de 4,9 milhões de metros cúbicos normais de gás renovável, volume capaz de contribuir para a diversificação da matriz energética portuguesa e reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados.
Economia circular e gestão de subprodutos
Além do biometano, a operação gerará um resíduo sólido e líquido conhecido como digestato, com potencial para aplicação agrícola como biofertilizante. A utilização desse material no campo dependerá de análises laboratoriais e do atendimento a requisitos técnicos e regulatórios. Enquanto não obtiver a descaracterização como resíduo, o digestato será encaminhado a operadores licenciados para tratamento adequado, conforme informações do promotor.
Essa abordagem integrada reflete os princípios da economia circular, aproveitando ao máximo os recursos disponíveis e minimizando o desperdício. A valorização de subprodutos agropecuários não apenas gera energia limpa, mas também oferece soluções para a gestão de efluentes que, de outra forma, poderiam representar passivos ambientais.
Desafios logísticos e ambientais
A operação da unidade exigirá uma logística robusta. As estimativas apontam para a circulação diária de cerca de 20 camiões destinados ao transporte de matérias-primas, digestato e biometano. Durante a safra da azeitona, período de maior oferta de bagaço, esse número pode ultrapassar 30 veículos pesados por dia. Somam-se ainda caminhões para abastecimento de água e transporte de dióxido de carbono liquefeito.
Esse fluxo intenso, aliado às emissões atmosféricas, ruído de equipamentos e potencial geração de odores, figura entre os principais impactos ambientais identificados no estudo. A instalação ocupará uma área aproximada de dois hectares e terá vida útil estimada em 25 anos, o que reforça a necessidade de medidas de mitigação eficazes e monitoramento contínuo.
Alinhamento com metas de descarbonização
O projeto insere-se na estratégia nacional de transição energética e descarbonização, promovendo o uso de recursos locais e a redução de emissões de gases de efeito estufa. O biometano, por ser de origem renovável, contribui para as metas climáticas de Portugal e da União Europeia, além de fortalecer a segurança energética do país.
A consulta pública do Estudo de Impacte Ambiental, disponível no portal Participa da Agência Portuguesa do Ambiente até 25 de novembro, representa uma etapa crucial para a participação da sociedade e o aprimoramento do projeto. A concretização dessa unidade pode servir de referência para novos empreendimentos de biogás e biometano em Portugal, ampliando o papel da bioenergia na matriz nacional.



