O Porto do Açu, no Rio de Janeiro, lançou o projeto piloto DAC-to-Sea para produzir combustível sintético marítimo a partir da captura direta de CO₂ do ar. A iniciativa marca um avanço relevante na descarbonização do transporte marítimo brasileiro, combinando tecnologia de captura direta de ar (DAC) com a síntese de combustíveis líquidos para embarcações.
Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, o projeto tem como meta capturar 5.000 toneladas de CO₂ por ano e produzir cerca de 300 litros diários de combustível sintético, volume destinado inicialmente ao abastecimento de embarcações que operam no próprio porto. O projeto conta com crédito planejado de US$ 700 milhões via BNDES para a construção da planta de produção.
Tecnologia e modelo de produção
O conceito DAC-to-Sea integra a captura direta de dióxido de carbono da atmosfera com a produção de combustíveis sintéticos. Diferentemente de outras rotas de biocombustíveis marítimos, como bioóleo ou metanol verde derivado de biomassa, os combustíveis sintéticos produzidos por DAC partem de carbono capturado do ar, combinado com hidrogênio obtido por eletrólise da água, resultando em hidrocarbonetos líquidos compatíveis com motores marítimos convencionais.
Essa rota tecnológica é vista como promissora em cenários de descarbonização profunda do setor marítimo, especialmente em navegação de longo curso, onde a eletrificação direta enfrenta limitações técnicas. No caso do Porto do Açu, a produção em escala piloto permite validar a viabilidade técnica e econômica antes de eventuais expansões comerciais.
Contexto de mercado e relevância estratégica
O transporte marítimo responde por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa, e a pressão regulatória internacional para descarbonização do setor tem crescido. A Organização Marítima Internacional (IMO) estabeleceu metas ambiciosas de redução de emissões, o que impulsiona a busca por alternativas aos combustíveis fósseis tradicionais.
No Brasil, o Porto do Açu tem se posicionado como hub de projetos de energia de transição, incluindo infraestrutura para hidrogênio verde e movimentação de cargas relacionadas a energias renováveis. A entrada em combustíveis sintéticos marítimos reforça esse posicionamento e coloca o porto na vanguarda de soluções de baixo carbono para o setor naval no país.
Para produtores e investidores do setor de bioenergia, o projeto representa uma sinalização de diversificação tecnológica no portfólio de combustíveis de baixo carbono. Embora os volumes iniciais sejam reduzidos, a viabilização de plantas de DAC-to-Sea abre caminho para rotas complementares aos biocombustíveis convencionais, com potencial de escalabilidade caso os custos de captura e síntese se tornem competitivos.
Financiamento e viabilidade
O crédito planejado de US$ 700 milhões via BNDES para a construção da planta indica o interesse do banco de desenvolvimento em apoiar projetos de combustíveis de transição. A aprovação final do financiamento e o início efetivo das obras serão marcos importantes para avaliar o avanço da iniciativa.
A viabilidade econômica de plantas DAC-to-Sea ainda depende de fatores como custo da energia elétrica renovável, eficiência dos processos de captura e síntese, e o preço de mercado do combustível sintético frente a alternativas fósseis e renováveis. O projeto piloto no Porto do Açu funcionará como laboratório real para testar essas variáveis em condições operacionais.
O que acompanhar nos próximos dias
Investidores e executivos do setor devem monitorar três frentes principais: a aprovação final do financiamento de US$ 700 milhões pelo BNDES, os resultados técnicos da fase piloto — incluindo eficiência de captura e custos de produção —, e eventuais anúncios sobre a expansão da capacidade produtiva para volumes comerciais. Também vale acompanhar o interesse de armadores e operadores portuários em contratos de offtake para o combustível sintético, fator decisivo para a escalabilidade do projeto.



