A defasagem entre os preços do diesel praticados pela Petrobras e as cotações internacionais atingiu patamares que podem comprometer o abastecimento no país. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a diferença chegou a 104%, ou R$ 2,87 por litro, inviabilizando as importações em um momento crítico para o agronegócio brasileiro.
A Abicom projeta que as importações de diesel para outubro devem cair para apenas 150 mil metros cúbicos, ante 850 mil m³ em setembro — uma redução de 82%. A entidade alerta que essa queda pode criar restrições pontuais de abastecimento justamente quando a demanda agrícola se intensifica com o avanço da safra.
Pressão do agronegócio e risco operacional
A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) manifestou preocupação com atrasos e possíveis restrições de entrega de diesel, sinalizando que o setor já sente os efeitos da situação. O combustível é essencial para operações de plantio, transporte e colheita, e qualquer restrição no abastecimento pode afetar diretamente a logística e os custos de produção.
O cenário preocupa porque o Brasil depende das importações para complementar a oferta doméstica de diesel. Com os preços internos artificialmente baixos em relação ao mercado externo, os importadores ficam impossibilitados de trazer o produto de fora, pressionando a cadeia de abastecimento.
Contexto de subvenção e política de preços
A defasagem de preços ocorre em um contexto de política de contenção da Petrobras, que mantém os valores abaixo da paridade internacional. O governo federal editou a Medida Provisória 1.391/2026, que prevê uma subvenção adicional de R$ 1,00 por litro de diesel, mas a regulamentação ainda não foi concluída.
Segundo reportagens de veículos como Poder360, Reuters e Fecombustíveis, o setor de importação aguarda definições claras sobre como essa subvenção será operacionalizada e se será suficiente para reequilibrar a equação econômica das importações. Sem essa regulamentação, a tendência é que os volumes importados permaneçam em níveis baixos.
Impactos na cadeia de distribuição
A queda abrupta nas importações pressiona distribuidoras e revendedoras, que precisam ajustar seus estoques e planejamento de suprimento. O risco de desabastecimento localizado pode se materializar principalmente em regiões mais distantes das refinarias ou com maior dependência de diesel importado.
Para o agronegócio, que consome cerca de metade do diesel vendido no país, qualquer restrição representa aumento de custos logísticos e potencial impacto nos prazos de operação. A Farsul já alertou autoridades sobre a necessidade de medidas urgentes para garantir a normalidade do abastecimento.
O que acompanhar nos próximos dias
O mercado aguarda a regulamentação definitiva da subvenção adicional de R$ 1,00 por litro prevista na MP 1.391/2026, que pode alterar a dinâmica das importações. Outro ponto de atenção é a eventual resposta da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) ou do Ministério de Minas e Energia (MME) aos alertas da Farsul e da Abicom.
Além disso, o setor observa se a Petrobras sinalizará reajustes de preços nas refinarias, movimento que reduziria a defasagem e poderia reequilibrar as importações. A evolução dos volumes importados ao longo de outubro será determinante para avaliar se o risco de escassez se concretiza ou se as medidas governamentais conseguem evitar restrições no abastecimento.



