Desde 1º de agosto, a gasolina C comum e a gasolina C comum aditivada comercializadas no Brasil passaram a contar, temporariamente, com 32% de etanol anidro em sua composição. O chamado E32 substituiu o E30 e terá vigência inicial de 180 dias, com possibilidade de uma única prorrogação por igual período. A medida foi estabelecida pela Resolução nº 9/2026 do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), dentro das possibilidades abertas pela Lei do Combustível do Futuro. A gasolina premium permanece com 25% de etanol.

A mudança rapidamente ganhou espaço no debate público, acompanhada de questionamentos sobre aumento de consumo, compatibilidade com motores e possíveis impactos para os veículos. Parte dessa reação, porém, parte da impressão de que o Brasil estaria fazendo uma mudança brusca na composição da gasolina. O histórico mostra outra realidade: o país utiliza percentuais relevantes de etanol anidro há mais de três décadas, passando pelo E22, E25, E27 e, mais recentemente, pelo E30. O E27, por exemplo, permaneceu em vigor por cerca de dez anos antes da nova sequência de elevações.

Essa trajetória importa porque o E32 não foi introduzido sobre uma frota acostumada a utilizar gasolina sem etanol. Trata-se de mais um avanço dentro de um processo gradual de aumento da participação do biocombustível, acompanhado por desenvolvimento tecnológico da indústria automotiva brasileira e por avaliações técnicas. Para subsidiar a decisão atual, ensaios coordenados pelo Ministério de Minas e Energia e executados pelo Instituto Mauá de Tecnologia avaliaram veículos leves e motocicletas representativos da frota nacional, analisando desempenho, dirigibilidade, partida a frio, consumo e emissões, tanto em laboratório quanto em condições reais de utilização. Segundo o MME, os testes não identificaram impactos relevantes no funcionamento dos veículos avaliados, inclusive nos modelos não flex.

Isso não significa afirmar que qualquer veículo, em qualquer condição, terá comportamento absolutamente idêntico. O próprio debate técnico exige essa cautela. Veículos antigos carburados, automóveis importados de forma independente e não adaptados às especificações brasileiras ou componentes previamente degradados podem exigir atenção específica. Também seguem em andamento estudos de maior duração, inclusive para avaliar misturas superiores, como o E35, especialmente sob a perspectiva da durabilidade dos componentes. A adoção temporária do E32 permite justamente que essa evolução continue sendo acompanhada à medida que novas evidências são produzidas.

Outra preocupação recorrente está relacionada ao consumo. Como o etanol possui menor conteúdo energético por litro do que a gasolina, é razoável esperar que a alteração da composição possa afetar a autonomia. Entretanto, os resultados dos ensaios citados pelo consultor automotivo da UNICA Ricardo Abreu mostram que esse efeito não ocorreu de maneira uniforme: houve veículos com pequenas reduções e outros com pequenas melhorias de autonomia, dentro de uma faixa estreita de variação. Isso ocorre porque o comportamento do combustível não depende apenas de seu conteúdo energético, mas também da calibração do motor e de propriedades como a maior octanagem proporcionada pelo etanol.

Mas a importância do E32 para o setor de biocombustíveis vai muito além da discussão sobre o funcionamento dos veículos. Ao elevar de 30% para 32% a presença obrigatória de etanol anidro na gasolina, o Brasil aumenta a participação de um combustível renovável produzido internamente e reduz sua exposição à gasolina importada. De acordo com estimativa do Ministério de Minas e Energia, a adoção da nova mistura pode reduzir a necessidade brasileira de importação de gasolina em aproximadamente 900 milhões de litros por ano.

Esse ponto ganhou ainda mais importância em um cenário internacional marcado pela volatilidade dos preços do petróleo e pela necessidade de o governo brasileiro recorrer a medidas para amortecer seus efeitos sobre o mercado doméstico. Em análise publicada pelo AgFeed, o pesquisador Leandro Gilio, do Insper Agro Global, argumenta que ampliar a utilização do etanol doméstico significa também reduzir a exposição econômica do país às oscilações da gasolina importada. Nesse sentido, o E32 deixa de ser apenas uma medida voltada ao setor sucroenergético e passa a integrar uma discussão mais ampla sobre segurança energética, equilíbrio externo e utilização estratégica da capacidade produtiva nacional.

Para a cadeia de biocombustíveis, portanto, cada ponto percentual adicional de etanol na gasolina representa mercado para uma produção realizada dentro do Brasil. Significa demanda para produtores de cana-de-açúcar e milho, unidades industriais, fornecedores, transportadores e todos os demais elos envolvidos na produção e distribuição do combustível. Ao mesmo tempo, amplia a presença de uma fonte renovável na matriz de transportes e fortalece uma competência tecnológica que o país desenvolve desde o Proálcool e aperfeiçoou posteriormente com a disseminação dos veículos flex.

Existe, no entanto, uma segunda dimensão do E32 que o setor não deveria ignorar. A intensidade da reação negativa à medida mostra que o conhecimento técnico acumulado dentro da cadeia nem sempre chega à sociedade com a mesma velocidade das críticas. Se uma parcela significativa do consumidor ouve “32% de etanol” e imediatamente associa a informação a risco para o motor ou perda expressiva de desempenho, existe uma distância entre aquilo que o setor conhece sobre seu produto e aquilo que consegue comunicar sobre ele. E essa distância não pode ser tratada apenas como desinformação do consumidor.

O E32 traz, nesse sentido, uma responsabilidade adicional para quem atua nessa cadeia. Não se trata de defender o etanol a qualquer custo ou desconsiderar dúvidas legítimas, mas de conhecer o histórico da mistura, compreender os estudos realizados, reconhecer as limitações das evidências disponíveis e conseguir apresentar informações confiáveis quando o produto é questionado. A credibilidade de uma indústria não é construída apenas dentro das usinas, dos centros de pesquisa ou das decisões regulatórias; ela também depende da capacidade de explicar à sociedade por que determinadas escolhas estão sendo feitas.

Talvez essa seja uma das principais mensagens deixadas pelo E32 até aqui. Para o Brasil, aumentar a participação do etanol na gasolina significa utilizar mais combustível renovável produzido internamente, reduzir a dependência de gasolina importada e fortalecer uma cadeia produtiva na qual o país possui décadas de experiência. Para o setor, porém, existe um desafio adicional: transformar todo esse fundamento técnico, econômico e ambiental em confiança. Porque não basta que uma tecnologia tenha argumentos sólidos a seu favor. É preciso que a sociedade conheça esses argumentos para compreender por que ela importa.