Depois de cerca de duas décadas em que os veículos flex passaram a dominar a relação do brasileiro com o etanol, a Chevrolet decidiu fazer um movimento que chama atenção: voltou a oferecer um automóvel desenvolvido para rodar exclusivamente com esse combustível.

O Onix ECO integra a linha 2027 do modelo e está disponível nas carrocerias hatch e sedã, com motor 1.0 turbo e transmissão automática. Segundo a Chevrolet, o modelo resgata a proposta de motorização dedicada exclusivamente ao etanol depois de cerca de duas décadas de popularização do sistema flex no Brasil.

A primeira pergunta é inevitável: se um veículo flex já permite ao consumidor abastecer com etanol, por que voltar a produzir um automóvel que aceita apenas esse combustível? A resposta ajuda a entender por que o lançamento merece atenção muito além do mercado automotivo.

O Onix ECO não representa simplesmente a recuperação de uma tecnologia do passado. Ele surge em um contexto no qual o etanol ganha relevância como instrumento de descarbonização e como uma das rotas possíveis para a mobilidade de baixo carbono no Brasil. Segundo a GM, a versão recebeu uma calibração específica de software para operar exclusivamente com etanol, sem alterações no hardware do motor 1.0 turbo, com estratégias próprias de ignição, combustão e gerenciamento dos periféricos do motor.

A solução também permitiu que as versões automáticas fossem enquadradas no Programa Carro Sustentável, dentro do MOVER, ampliando o acesso aos incentivos tributários destinados aos veículos que atendem aos critérios estabelecidos pelo programa. Mas limitar a importância desse lançamento ao benefício fiscal seria olhar apenas para uma parte da questão.

A própria Chevrolet afirma que o Onix ECO apresenta redução de aproximadamente 70% nas emissões de carbono pelo critério poço à roda, quando comparado a um modelo similar movido a gasolina. Esse critério considera não apenas as emissões durante a utilização do veículo, mas também aquelas relacionadas à produção e ao uso do combustível ao longo de sua cadeia. A montadora também posiciona o modelo como uma alternativa para empresas que buscam reduzir as emissões de suas frotas e avançar em suas metas de descarbonização.

O lançamento também recupera uma discussão histórica. O Brasil já viveu uma fase de forte expansão dos veículos movidos exclusivamente a álcool a partir do Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, criado em 1975 como resposta à crise do petróleo e como estratégia para reduzir a dependência brasileira de combustíveis fósseis importados. Durante os anos 1980, os carros a álcool conquistaram participação relevante no mercado brasileiro, apoiados pelo crescimento da produção nacional do combustível e pelo desenvolvimento da tecnologia automotiva.

O cenário mudou profundamente com a chegada dos veículos flex, em 2003. A possibilidade de utilizar gasolina, etanol ou qualquer proporção entre os dois combustíveis transferiu ao consumidor a decisão sobre qual produto utilizar em cada abastecimento e, progressivamente, praticamente eliminou do mercado os veículos dedicados exclusivamente ao etanol.

Mais de vinte anos depois, o retorno de um modelo 100% etanol acontece sob circunstâncias bastante diferentes. A discussão deixou de estar concentrada apenas em segurança energética ou preço do petróleo e passou a incorporar um elemento decisivo: a redução das emissões de gases de efeito estufa.

Nesse ponto, o Brasil possui uma vantagem difícil de reproduzir. O país construiu ao longo de décadas uma cadeia de produção de biocombustíveis em larga escala, desenvolveu tecnologia automotiva adaptada ao seu uso e possui uma extensa infraestrutura de distribuição já instalada.

Desde a introdução dos veículos flex, em 2003, o uso de etanol no Brasil, tanto hidratado quanto anidro misturado à gasolina, já evitou a emissão de mais de 730 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, segundo dados da UNICA. Considerando seu ciclo de vida, o etanol de cana-de-açúcar pode reduzir em até 90% as emissões de gases de efeito estufa em comparação à gasolina, dependendo das condições e da metodologia considerada.

Esses números ajudam a explicar por que a decisão da General Motors precisa ser analisada para além do próprio Onix. Quando uma montadora desse porte volta a colocar no mercado um veículo dedicado ao etanol, está fazendo uma escolha tecnológica e sinalizando que o biocombustível brasileiro ainda possui espaço em uma indústria que passa por uma profunda transformação.

Durante os últimos anos, a discussão sobre o futuro da mobilidade esteve fortemente associada à eletrificação. Os veículos elétricos têm papel importante nesse processo, mas transição energética não significa necessariamente a adoção de uma única solução tecnológica em todos os mercados. Países diferentes possuem matrizes energéticas, infraestrutura, disponibilidade de recursos e vantagens competitivas distintas.

No caso brasileiro, ignorar o etanol significaria deixar de aproveitar uma solução que já possui escala, conhecimento acumulado, infraestrutura e capacidade produtiva instalada.

O retorno do carro 100% etanol também provoca uma reflexão para dentro da própria cadeia sucroenergética. Nesse aspecto, importante chamar atenção para a possibilidade de as próprias unidades produtoras e empresas relacionadas ao setor considerarem veículos movidos a etanol na renovação de suas frotas.

A discussão não deve ser transformada em obrigação. Nenhuma decisão empresarial pode ignorar custo total de propriedade, consumo, disponibilidade regional de combustível, manutenção, preço de aquisição, depreciação e valor residual.

Ainda assim, existe uma questão legítima: o etanol está efetivamente sendo considerado nas decisões de consumo e investimento das próprias empresas e profissionais que fazem parte dessa cadeia?

A coerência entre discurso e prática importa. É difícil defender perante a sociedade a relevância econômica, ambiental e estratégica do etanol se o próprio setor não estiver disposto a avaliar seu uso quando tecnicamente e economicamente viável. Antes de convencer o mercado, a cadeia produtiva também precisa demonstrar confiança no produto que coloca à disposição desse mercado.

Essa discussão ganha ainda mais dimensão quando se observa o que existe por trás de um litro de etanol. De acordo com dados setoriais compilados pela UNICA, o setor bioenergético está presente em mais de 1,2 mil municípios brasileiros, gera mais de 750 mil empregos formais e, quando considerados os empregos indiretos, alcança aproximadamente 2,2 milhões de postos de trabalho ao longo da cadeia.

São produtores rurais, trabalhadores agrícolas, motoristas, operadores industriais, engenheiros, mecânicos, pesquisadores, profissionais administrativos, fabricantes de máquinas e equipamentos, fornecedores de tecnologia, empresas de logística, distribuidoras e postos de combustíveis. Na safra 2024/2025, o Brasil produziu aproximadamente 37,3 bilhões de litros de etanol considerando a produção a partir da cana-de-açúcar e do milho.

Por isso, fortalecer o etanol não significa apenas aumentar a participação de um combustível na matriz. Significa fortalecer uma cadeia industrial e agrícola, estimular investimentos em tecnologia, gerar renda e manter atividade econômica em centenas de municípios brasileiros.

É nesse contexto que o Onix ECO se torna relevante. O modelo não precisa ser a escolha ideal para todos os consumidores, assim como nenhuma tecnologia será adequada para todos os perfis de uso. O que seu lançamento faz é recolocar uma alternativa brasileira na mesa e mostrar que o etanol pode continuar participando da transformação da mobilidade.

O futuro provavelmente será formado pela convivência de diferentes rotas tecnológicas, incluindo veículos elétricos, híbridos, biocombustíveis e outras soluções que ainda continuarão evoluindo. Para o Brasil, a questão central não deveria ser escolher uma única tecnologia, mas identificar quais alternativas permitem reduzir emissões aproveitando as competências, a infraestrutura e os recursos que o país já possui.

O carro 100% etanol voltou ao mercado brasileiro. Mais do que recuperar uma solução conhecida, seu retorno pode ajudar a reposicionar o etanol como parte da agenda contemporânea de descarbonização e abrir uma discussão necessária sobre o espaço que o Brasil pretende dar a uma das tecnologias energéticas que melhor aprendeu a desenvolver.