Alternativa ao carvão mineral ganha força na descarbonização da indústria cimenteira
A indústria de cimento, responsável por uma fatia significativa das emissões globais de carbono, pode encontrar nos resíduos não recicláveis uma alternativa viável para reduzir sua dependência de combustíveis fósseis. Um extenso levantamento acadêmico realizado por pesquisadores australianos analisou três décadas de publicações científicas e identificou o combustível derivado de resíduos (RDF, na sigla em inglês) como opção promissora, embora ainda cercada de desafios técnicos e regulatórios.
O trabalho, conduzido pela Universidade de Adelaide, revisou 211 artigos científicos publicados entre 1991 e meados de 2025, dos quais 48 foram examinados em profundidade. A conclusão central aponta que, apesar do potencial demonstrado, a ampliação do uso de RDF depende de avanços em padronização, controle de qualidade e marcos regulatórios mais robustos.
Setor cimenteiro responde por fatia expressiva das emissões de CO₂
A fabricação de cimento exige temperaturas extremamente elevadas, tradicionalmente alcançadas por meio da queima de carvão mineral e outros combustíveis de origem fóssil. Essa característica coloca o setor entre os grandes emissores de dióxido de carbono no mundo, com participação estimada em torno de 8% das emissões globais. Ao mesmo tempo, volumes crescentes de resíduos combustíveis que não podem ser reciclados acabam destinados a aterros sanitários, gerando pressão ambiental e desperdício de potencial energético.
O coprocessamento — prática que consiste em queimar RDF junto com combustíveis convencionais nos fornos de cimento — surge como estratégia para enfrentar simultaneamente dois problemas: reduzir o envio de resíduos para aterros e diminuir a pegada de carbono da produção de cimento. O RDF é obtido a partir do tratamento de resíduos adequados, transformando materiais que não têm destino na cadeia de reciclagem em fonte de energia térmica.
Falta de padronização dificulta comparação e ampliação do uso
A revisão conduzida pela equipe da Escola de Engenharia Civil e Construção da Universidade de Adelaide, liderada pela doutoranda Geethmi Thisakya, identificou uma confusão recorrente entre RDF e o combustível sólido recuperado (SRF), que possui critérios de qualidade mais rigorosos. A falta de terminologia uniforme e de padrões técnicos consistentes dificulta a comparação entre estudos, a interpretação de normas regulatórias e a garantia de fornecimento confiável de combustível.
Segundo os pesquisadores, a indústria cimenteira precisa de segurança quanto ao desempenho consistente dos combustíveis alternativos, ao cumprimento de requisitos ambientais e à manutenção de operações seguras e estáveis. Sem sistemas sólidos de garantia de qualidade e marcos regulatórios claros, a tomada de decisão baseada em evidências fica comprometida.
Prioridades para pesquisa e desenvolvimento
O estudo, publicado na revista International Journal of Building Pathology and Adaptation, elenca uma série de prioridades para avançar no tema: aprimorar a classificação dos combustíveis derivados de resíduos, fortalecer mecanismos de controle de qualidade, realizar comparações entre regulações de diferentes países e conduzir avaliações detalhadas de impactos ambientais, econômicos e sociais.
Os autores também destacam a necessidade de compreender como o RDF se comporta em contextos industriais e geográficos variados, reconhecendo que as condições locais influenciam diretamente o desempenho da tecnologia. A pesquisa reforça que a reciclagem e o reúso de materiais devem continuar sendo prioridade, e que o RDF deve ser considerado apenas para resíduos combustíveis sem viabilidade técnica ou econômica de reciclagem.
Diálogo com desafios brasileiros e do setor de bioenergia
Embora o estudo não tenha abordado casos brasileiros ou da região amazônica, o tema dialoga diretamente com desafios enfrentados no país, especialmente em cidades que dependem de aterros sanitários e buscam soluções para a gestão de resíduos. Além disso, a descarbonização da indústria de cimento pode abrir espaço para a integração de biocombustíveis e outras fontes renováveis de energia térmica, ampliando o papel da bioenergia na transição energética industrial.
A experiência internacional com RDF pode servir de referência para o desenvolvimento de políticas públicas e normas técnicas no Brasil, sempre considerando as especificidades locais e a necessidade de avaliações rigorosas de impacto. O próximo passo, segundo os pesquisadores australianos, é preencher as lacunas de conhecimento com estudos comparativos e avaliações completas antes de ampliar o uso de resíduos como combustível de forma segura e sustentável.



