O Brasil, historicamente reconhecido como referência mundial na produção e uso de biocombustíveis, vive um paradoxo preocupante: ao mesmo tempo em que diversos países intensificam suas políticas de incentivo à bioenergia, o país reduz gradualmente os estímulos ao setor. A observação, feita por especialistas do agronegócio e da energia renovável, acende um alerta sobre o risco de o país perder protagonismo em um mercado global em franca expansão.

Movimento global de valorização da bioenergia

O cenário internacional mostra uma tendência clara de fortalecimento dos biocombustíveis como alternativa estratégica para a descarbonização dos transportes. Os Estados Unidos, por exemplo, têm ampliado consistentemente seus programas de incentivo ao etanol de milho e ao biodiesel, com metas ambiciosas de mistura e subsídios robustos para a produção de combustíveis renováveis avançados. O país norte-americano investe pesadamente em biocombustíveis de segunda geração e em combustível sustentável de aviação (SAF), consolidando uma indústria que movimenta bilhões de dólares anualmente.

Até mesmo países com menor tradição no setor, como a Bolívia, têm expandido suas políticas de estímulo aos biocombustíveis. A nação andina vem aumentando percentuais de mistura obrigatória e criando mecanismos de apoio à produção local, reconhecendo o potencial da bioenergia tanto para a segurança energética quanto para o desenvolvimento agrícola regional.

A trajetória brasileira de enfraquecimento dos incentivos

Em contraste com esse movimento global, o Brasil tem adotado uma postura que preocupa os agentes do setor de bioenergia. Nos últimos anos, o país reduziu progressivamente os mecanismos de incentivo que historicamente sustentaram a competitividade dos biocombustíveis nacionais. Programas de financiamento foram descontinuados ou tiveram seus recursos diminuídos, enquanto a carga tributária sobre o setor permanece elevada em comparação com os combustíveis fósseis.

A questão se torna ainda mais crítica quando se considera que o Brasil construiu ao longo de décadas uma expertise única no setor. O Proálcool, iniciado nos anos 1970, transformou o país em pioneiro mundial no uso de etanol combustível. A tecnologia flex-fuel, que permite aos veículos utilizar gasolina ou etanol em qualquer proporção, é uma inovação brasileira que se tornou padrão no mercado nacional. O RenovaBio, política de Estado criada em 2017, representou um avanço importante ao estabelecer metas de descarbonização, mas enfrenta desafios de implementação e carece de mecanismos complementares de incentivo.

Riscos para a competitividade e a liderança tecnológica

A redução dos incentivos aos biocombustíveis no Brasil ocorre em um momento particularmente delicado. O mercado global de bioenergia está em transformação acelerada, com investimentos crescentes em tecnologias de segunda e terceira geração, bioquerosene de aviação e biometano. Países que fortalecem suas políticas de apoio ao setor não apenas garantem maior segurança energética, mas também posicionam suas indústrias para capturar oportunidades em mercados emergentes de alto valor agregado.

Para o Brasil, o enfraquecimento dos estímulos pode significar a perda gradual de competitividade em um setor onde o país detém vantagens naturais incomparáveis: clima favorável, disponibilidade de terras, domínio tecnológico e uma cadeia produtiva consolidada. Mais do que isso, representa o risco de desperdiçar décadas de investimento em pesquisa, desenvolvimento e infraestrutura.

A urgência de uma reavaliação estratégica

O momento exige uma reflexão profunda sobre o papel dos biocombustíveis na estratégia energética brasileira. Enquanto o mundo avança na valorização da bioenergia como ferramenta essencial para a transição energética, o Brasil precisa decidir se manterá sua posição de liderança ou assistirá outros países ocuparem espaços que historicamente foram seus. A retomada de políticas consistentes de incentivo não é apenas uma questão setorial, mas uma decisão estratégica sobre o futuro energético e ambiental do país.