O mercado de biometano no Brasil vem apresentando um crescimento expressivo nos últimos anos. Produzido a partir da purificação do biogás, o biometano apresenta características semelhantes às do gás natural e pode ser utilizado como combustível veicular, combustível industrial e fonte de energia térmica. Dependendo da infraestrutura disponível, também pode ser injetado em redes de distribuição de gás.
Esse conjunto de aplicações coloca o biometano em posição estratégica para contribuir com a redução das emissões de gases de efeito estufa, especialmente em atividades nas quais a substituição direta de combustíveis fósseis representa um desafio.
A evolução entre 2020 e 2025 demonstra que o setor vem ampliando sua produção efetiva. O crescimento pode estar associado à entrada em operação de novas unidades, à expansão de plantas existentes e ao aproveitamento de diferentes fontes de matéria orgânica para a produção de biogás.
Entre as matérias-primas utilizadas estão resíduos da agropecuária, dejetos animais, resíduos orgânicos industriais, efluentes e resíduos sólidos urbanos. A composição e a disponibilidade desses materiais influenciam o potencial de produção de biogás e, consequentemente, o volume de biometano que pode ser obtido.
O processo envolve duas etapas principais. Primeiro, a matéria orgânica é degradada por comunidades de microrganismos em condições anaeróbias, ou seja, na ausência de oxigênio, produzindo biogás. Em seguida, esse gás passa por processos de purificação que removem componentes como dióxido de carbono, sulfeto de hidrogênio e umidade, conforme a tecnologia empregada e os requisitos de qualidade do produto final.
O resultado é um gás com elevada concentração de metano, adequado aos usos previstos para o biometano e às especificações regulatórias aplicáveis.
Capacidade instalada não é o mesmo que produção efetiva
Apesar do crescimento observado, existe uma distinção fundamental para compreender o tamanho real do mercado: a capacidade instalada de uma planta não corresponde necessariamente ao volume que ela produz.
A capacidade instalada representa o potencial de produção de uma unidade em determinadas condições operacionais. Já a produção efetiva corresponde ao volume realmente produzido durante um período específico.
Uma planta pode, por exemplo, ter capacidade nominal para produzir 10 mil m³ de biometano por dia, mas operar abaixo desse limite por diferentes razões. Nesse caso, multiplicar a capacidade diária pelo número de dias do ano produziria uma estimativa teórica, e não o volume efetivamente disponibilizado ao mercado.
Entre os fatores que podem limitar a produção estão:
• Operação abaixo da capacidade nominal: a unidade pode trabalhar com uma carga inferior à prevista em seu projeto.
• Paradas para manutenção: equipamentos e sistemas precisam de inspeções, reparos e ajustes periódicos.
• Disponibilidade de matéria-prima: variações na quantidade, na composição e na regularidade dos resíduos podem afetar a produção de biogás.
• Desempenho da digestão anaeróbia: condições como temperatura, pH, carga orgânica e equilíbrio da comunidade microbiana influenciam a estabilidade do processo.
• Limitações na purificação: a disponibilidade e o desempenho dos sistemas de tratamento podem restringir o volume final de biometano.
• Problemas operacionais e logísticos: falhas de equipamentos, dificuldades no transporte dos insumos e limitações para escoar ou comercializar o gás também podem reduzir a produção.
Por isso, conhecer apenas a capacidade instalada não é suficiente para avaliar quanto combustível está efetivamente sendo produzido e disponibilizado aos consumidores.
O que os números revelam sobre o mercado brasileiro?
O crescimento registrado entre 2020 e 2025 é um indicador importante da evolução do setor, mas não deve ser interpretado isoladamente. Para avaliar a maturidade do mercado, é necessário observar outros indicadores, como o número de plantas em operação, a capacidade instalada, a utilização dessa capacidade, os investimentos anunciados e efetivamente executados e a distribuição geográfica da produção.
Também é importante distinguir projetos anunciados, unidades em construção, plantas autorizadas e empreendimentos que já produzem comercialmente. Embora todos possam indicar perspectivas de expansão, apenas as unidades efetivamente operacionais contribuem para a produção corrente.
Outro aspecto relevante é a infraestrutura necessária para conectar a produção aos consumidores. A proximidade entre as fontes de resíduos, as unidades de processamento e os mercados consumidores pode influenciar a viabilidade econômica dos projetos. Em determinadas situações, o transporte por veículos apropriados pode ser uma alternativa à conexão direta com redes de gás.
A demanda também desempenha papel central. Indústrias, frotas de veículos pesados e outros consumidores podem encontrar no biometano uma alternativa para substituir parte do consumo de combustíveis fósseis, desde que existam condições técnicas, econômicas e logísticas adequadas.
Perspectivas para a expansão do biometano
O Brasil reúne condições favoráveis ao desenvolvimento do biometano, considerando a dimensão de sua atividade agropecuária, a produção agroindustrial e a geração de resíduos orgânicos em centros urbanos e instalações industriais.
O aproveitamento desses materiais pode oferecer benefícios que vão além da produção de energia. Quando associado a sistemas adequados de tratamento, o processo pode contribuir para a gestão de resíduos e efluentes, além de permitir a recuperação de parte de seu potencial energético.
Entretanto, transformar esse potencial em produção efetiva exige investimentos, fornecimento regular de matéria-prima, estabilidade operacional, infraestrutura e demanda capaz de sustentar os empreendimentos.
O desafio do setor, portanto, não se limita a instalar novas unidades. Também envolve garantir que as plantas operem de maneira eficiente, mantenham a qualidade do produto e consigam comercializar o biometano produzido.

Foto de Erick Silveira (@DoutorBiotec)
Biogás & Biometano
Erick Silveira (@DoutorBiotec)
Biotecnologia

Doutor em Biotecnologia com mais de 10 anos de experiência em pesquisa científica no Brasil, na Espanha e na Austrália. Especialista em microbiologia, fermentação, biotecnologia industrial e bioprocessos, com foco em inovação e aplicações industriais. Atua na divulgação científica sobre bioenergia, biocombustíveis e sustentabilidade, aproximando a ciência do público por meio do portal Biocombustíveis News e das redes sociais, como @DoutorBiotec.