A produção de etanol no Brasil passa por uma transformação importante. Além da expansão do etanol de milho, cresce o interesse por um modelo que integra duas matérias-primas na mesma unidade industrial: a cana-de-açúcar e o milho.
Conhecidas como usinas flex, essas operações representam uma alternativa para ampliar o aproveitamento da estrutura existente, diversificar a produção e enfrentar um dos desafios históricos do setor sucroenergético: a entressafra.
Nas usinas de cana, a interrupção da moagem não significa o desaparecimento das despesas. Mesmo sem produzir, permanecem custos relacionados à manutenção, conservação dos equipamentos, estrutura administrativa e preparação da safra seguinte.
O milho apresenta uma vantagem importante nesse cenário: diferentemente da cana, que precisa ser processada rapidamente após a colheita, o grão pode ser armazenado e utilizado ao longo do ano. Isso permite, dependendo da configuração industrial, produzir etanol durante a entressafra ou até processar as duas matérias-primas simultaneamente.
Outro diferencial está no aproveitamento energético. A produção de etanol de milho exige vapor e energia térmica, normalmente obtidos pela queima de biomassa. Enquanto unidades dedicadas exclusivamente ao milho precisam garantir o fornecimento de madeira ou outros combustíveis, as usinas de cana já produzem bagaço, utilizado em suas caldeiras.
Quando existe disponibilidade suficiente, essa biomassa pode abastecer também o processamento de milho, reduzindo a necessidade de aquisição de combustível externo.
Entretanto, essa vantagem depende do balanço energético da unidade, da capacidade das caldeiras e da possibilidade de armazenar bagaço para utilização fora da safra.
A integração também oferece oportunidades econômicas além do etanol. O processamento do milho gera coprodutos como o DDGS, utilizado na alimentação animal, e o óleo de milho, que possui aplicações industriais e pode ser destinado à produção de biodiesel.
Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a produção brasileira de etanol de milho alcançou aproximadamente 7,7 bilhões de litros em 2024, evidenciando a expansão dessa atividade. A comercialização dos coprodutos pode contribuir significativamente para a receita das unidades, dependendo das condições de mercado.
Mas transformar uma usina convencional em flex não significa simplesmente acrescentar milho ao processo. São necessários investimentos em recebimento, armazenamento, moagem do grão, tratamento do amido e outras adaptações industriais.
Além disso, a disponibilidade regional de milho, os custos de transporte, a capacidade de estocagem e a existência de mercado para os coprodutos influenciam diretamente a viabilidade. Em regiões distantes das principais áreas produtoras de grãos, a logística pode comprometer parte das vantagens econômicas.
Há ainda uma questão que merece atenção: ampliar a capacidade de produção não garante, por si só, maior rentabilidade. O crescimento da oferta de etanol precisa encontrar demanda e condições comerciais capazes de remunerar os investimentos.
Por isso, a análise deve considerar não apenas o custo de produção, mas também preços futuros, margens, capital necessário, disponibilidade energética e o impacto da nova operação sobre as atividades já existentes.
O modelo flex demonstra que o futuro do setor sucroenergético pode estar não apenas em processar mais matéria-prima, mas em aproveitar melhor a estrutura e os recursos que as usinas já possuem.
Entretanto, não existe uma solução única para todas as unidades. Transformar essa oportunidade em resultado exige planejamento, conhecimento técnico, capacidade de investimento e decisões fundamentadas na realidade de cada negócio.
Afinal, mais importante do que produzir por mais tempo é garantir que essa produção gere valor de forma sustentável.

Executiva do Setor Sucroenergético. Analisa os desafios da indústria a partir da experiência de quem vive a operação.
@milenarochaoficial



