O etanol brasileiro pode se tornar um dos pilares da descarbonização do setor de navegação marítima, com potencial de demanda que alcança 30 bilhões de litros anuais. A avaliação foi apresentada pelo CEO da SCA Brasil, Martinho Seiiti Ono, em 8 de outubro de 2026, durante discussões sobre o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Navegação. Segundo o executivo, uma participação de 10% de etanol na matriz de combustíveis marítimos seria suficiente para gerar esse volume — cifra que equivale a grande parte da produção atual de etanol no Brasil.

A declaração ocorre em momento estratégico para o setor de biocombustíveis marítimos, quando a pressão por alternativas de baixo carbono ao bunker fóssil se intensifica globalmente. O etanol, produzido em larga escala no Brasil a partir de cana-de-açúcar, apresenta vantagens competitivas em termos de disponibilidade, custo e pegada de carbono. A SCA Brasil, que atua no segmento de combustíveis sustentáveis de aviação e navegação, vê no setor marítimo uma oportunidade de escala capaz de absorver volumes expressivos da produção nacional.

Potencial de mercado e capacidade produtiva

A dimensão da demanda projetada é significativa. O Brasil produziu cerca de 30 bilhões de litros de etanol na safra 2025/2026, considerando etanol anidro e hidratado. Uma participação de 10% do etanol na matriz de combustíveis marítimos nacionais representaria, portanto, uma nova frente de consumo equivalente à quase totalidade da produção atual — ou à abertura de um mercado adicional que exigiria expansão da capacidade instalada ou redirecionamento de volumes hoje destinados a outros usos.

O Programa Nacional de Combustível Sustentável de Navegação, mencionado nas discussões que embasaram a avaliação do CEO da SCA Brasil, ainda está em fase de estruturação. A iniciativa busca criar marcos regulatórios e incentivos para a adoção de combustíveis renováveis no setor marítimo, similar ao que já ocorre com o SAF (Sustainable Aviation Fuel) para aviação. A expectativa é que o programa estabeleça metas de mistura obrigatória ou voluntária, além de diretrizes técnicas e de segurança para o uso de etanol e outros biocombustíveis em embarcações.

Viabilidade técnica e barreiras

A viabilidade técnica de blends com etanol em navios existentes é um dos pontos centrais para a concretização desse mercado. Embora o etanol seja utilizado em motores de combustão interna há décadas, sua aplicação em motores marítimos de grande porte exige adaptações de infraestrutura, sistemas de armazenamento e compatibilidade com os padrões internacionais de bunker. Questões logísticas, como a distribuição em portos e a capacidade de abastecimento em larga escala, também precisam ser equacionadas.

Além disso, barreiras regulatórias podem limitar a velocidade de adoção. A classificação do etanol como combustível marítimo, a certificação de motores e a harmonização com normas internacionais da Organização Marítima Internacional (OMI) são etapas necessárias para que o biocombustível ganhe espaço nos bunkers brasileiros e globais. A reação do mercado produtor de etanol, por sua vez, dependerá da previsibilidade de demanda e da competitividade de preços frente a alternativas como metanol verde, GNL e outros combustíveis de baixo carbono.

O que acompanhar nos próximos dias

O desenrolar do Programa Nacional de Combustível Sustentável de Navegação será determinante para definir prazos, metas e incentivos. A movimentação de armadores, operadores portuários e produtores de etanol em torno de testes e projetos-piloto pode sinalizar o ritmo de adoção. Além disso, a posição de usinas e tradings sobre a alocação de volumes para o mercado marítimo, em competição com exportação, automotivo e SAF, será fundamental para avaliar a viabilidade econômica da proposta. Por fim, a definição de padrões técnicos e a interlocução com órgãos reguladores internacionais devem ser observadas de perto por executivos e investidores do setor.