A Universidade Estadual do Ceará e a UTE Energia Pecém concluíram em 14 de outubro de 2026 um teste inédito de co‑combustão de biocarvão produzido a partir de casca de coco verde com carvão mineral em ambiente industrial. O experimento faz parte do Projeto Carvão Híbrido, desenvolvido no âmbito do Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da ANEEL, e alcançou nível de maturidade tecnológica TRL‑6, etapa que demonstra a viabilidade da tecnologia em condições representativas de operação.
Durante o teste, foram processadas mais de 19 toneladas de casca de coco verde, resultando em aproximadamente 1,5 tonelada de biocarvão em formato de pellets. O material foi utilizado em queima conjunta com carvão mineral na usina térmica instalada no Ceará, permitindo verificar o desempenho técnico da substituição parcial do combustível fóssil por biomassa residual.
Projeto integrado ao PDI da ANEEL
Segundo a Uece, o Projeto Carvão Híbrido está vinculado ao Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação regulado pela ANEEL. O foco do projeto é avaliar a viabilidade técnica e operacional da co‑combustão de biocarvão derivado de resíduos agroindustriais em instalações térmicas que atualmente operam com carvão mineral. A casca de coco verde, resíduo abundante em regiões litorâneas e agrícolas do Nordeste, foi escolhida como matéria‑prima por sua disponibilidade e pelo potencial de reduzir o descarte inadequado desse material.
A classificação TRL‑6 indica que a tecnologia foi demonstrada em ambiente relevante, ou seja, em condições próximas às da operação comercial. Esse estágio antecede a demonstração em ambiente operacional completo e o escalonamento para uso industrial em escala plena.
Implicações para descarbonização industrial
A co‑combustão de biocarvão com carvão mineral é uma das rotas investigadas para reduzir as emissões de carbono fóssil em termelétricas sem exigir a substituição completa da infraestrutura existente. A utilização de biomassa residual processada em pellets facilita o manuseio, transporte e alimentação nos sistemas de queima projetados originalmente para carvão mineral.
O aproveitamento de casca de coco verde também responde a um problema ambiental regional. Esse resíduo, gerado em grande volume pela indústria de água de coco e pelo consumo in natura, costuma acumular‑se em aterros ou áreas inadequadas. A conversão em biocarvão representa uma alternativa de valorização energética e redução de passivos ambientais.
Processamento e características do biocarvão
O biocarvão utilizado no teste foi produzido por meio de pirólise, processo térmico que converte a biomassa em um material com maior densidade energética e menor teor de umidade. A conformação em pellets melhora o transporte e a compatibilidade com os sistemas de alimentação das caldeiras. A Uece não divulgou dados sobre o poder calorífico do material nem sobre a proporção de substituição de carvão mineral adotada no experimento.
O que acompanhar nos próximos dias
Os desdobramentos do teste incluem a análise dos dados operacionais coletados, como eficiência de queima, emissões e comportamento da mistura na caldeira. A eventual publicação de relatórios técnicos detalhados permitirá avaliar a replicabilidade da solução em outras termelétricas e a viabilidade econômica do escalonamento.
Também merece atenção o posicionamento da ANEEL sobre possíveis editais complementares ou extensões de prazo para projetos de descarbonização no portfólio do PDI. A continuidade do financiamento é determinante para a passagem do TRL‑6 para etapas mais avançadas de demonstração. Produtores de coco, gestores de resíduos agroindustriais e termelétricas que operam com carvão mineral estão entre os agentes diretamente afetados pelos resultados do Projeto Carvão Híbrido.



