O Ministério de Minas e Energia realizou encontro com produtores e empresas para discutir a regulamentação do uso de etanol como mistura no óleo bunker marítimo, combustível utilizado pela navegação de longo curso e cabotagem. A iniciativa marca o início de uma agenda de trabalho inédita no país, voltada à descarbonização de um dos setores mais desafiadores da matriz energética global e com potencial de criar um novo mercado bilionário para o etanol brasileiro.
Segundo informações do portal Movimento Econômico, o encontro reuniu representantes do governo e do setor produtivo para projetar metas, prazos e percentuais de mistura. A proposta em discussão prevê a adição de 10% de etanol ao bunker, o que representaria um mercado potencial da ordem de 50 bilhões de litros anuais — volume equivalente a mais de uma vez e meia a produção brasileira de etanol destinada ao mercado doméstico de combustíveis leves.
Articulação interministerial e papel da ANP
O diálogo envolve órgãos estratégicos como a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e o Ministério dos Portos. A articulação busca construir um arcabouço regulatório que permita a comercialização da mistura de etanol no bunker com segurança técnica, adequação ambiental e competitividade econômica.
A regulamentação do etanol marítimo no Brasil responde a um movimento global de eletrificação e adoção de combustíveis de baixo carbono na navegação. A Organização Marítima Internacional (IMO) vem endurecendo metas de redução de emissões, e a indústria naval acelera a encomenda de motores multicombustíveis com capacidade para operar com etanol ou metanol. Até 2030, segundo os dados apurados, estão encomendados 336 navios equipados com essa tecnologia, sinalizando demanda concreta por biocombustíveis líquidos de origem renovável.
Impacto no mercado de etanol e na balança comercial
A abertura desse mercado pode reposicionar o etanol brasileiro em escala internacional. O bunker marítimo é um dos maiores consumidores de combustíveis fósseis do mundo, e a introdução de misturas com etanol oferece uma rota de descarbonização que não exige substituição imediata de frotas inteiras, diferentemente de soluções como GNL ou amônia verde.
Para os produtores de etanol, a regulamentação representa a possibilidade de diversificar destinos e reduzir a dependência de mercados tradicionais, como o de combustíveis veiculares e exportação para os Estados Unidos. Para tradings e operadores portuários, significa a criação de uma nova cadeia logística, com necessidade de infraestrutura de armazenamento, abastecimento e certificação de qualidade.
O que acompanhar nos próximos dias
O acompanhamento da agenda regulatória passa por três frentes principais. A primeira é a evolução da composição legal e eventual projeto de lei que formalize a mistura e seus percentuais, incluindo a definição final do mandato de 10% ou outros patamares. A segunda é a repercussão junto à IMO e o alinhamento da regulamentação brasileira com padrões internacionais de sustentabilidade e certificação de biocombustíveis marítimos. A terceira é o engajamento de produtores, armadores e terminais portuários na construção de pilotos comerciais e testes de campo, essenciais para validar a operação da mistura em larga escala.



