Durante muitos anos, o consumidor brasileiro aprendeu uma regra simples para decidir entre etanol e gasolina: se o preço do etanol estivesse em até 70% do preço da gasolina, ele seria economicamente mais vantajoso. A própria ANP trata esse percentual como uma “regra de bolso”, usada historicamente como referência para o comportamento dos proprietários de veículos flex.
O problema é que uma regra média não acompanha, sozinha, a diversidade tecnológica da frota atual. Motores mais modernos, diferentes calibrações, sistemas de injeção e estratégias eletrônicas de gerenciamento fazem com que a relação de eficiência entre etanol e gasolina varie de veículo para veículo. Por isso, os 70% continuam úteis como referência rápida, mas não devem ser tratados como uma fronteira fixa para qualquer automóvel.
A comparação mais precisa é feita pelo custo por quilômetro rodado. O cálculo é simples: divide-se o preço do litro pelo consumo obtido pelo veículo com aquele combustível. Se o automóvel apresenta uma relação de eficiência de 73% entre etanol e gasolina, por exemplo, o ponto de equilíbrio econômico tende a se aproximar desse percentual, e não necessariamente de 70%. Em outro carro, a relação pode ser menor ou maior.
Na prática, a melhor referência é medir o consumo real em alguns abastecimentos completos, preferencialmente em condições semelhantes de uso, porque trânsito, percurso, carga, calibragem dos pneus, uso do ar-condicionado e estilo de condução também alteram o resultado.
Os dados do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular, o PBEV, coordenado pelo Inmetro, são uma referência importante para comparar a eficiência dos veículos vendidos no país. As tabelas oficiais apresentam consumo em quilômetros por litro, eficiência energética e emissões em condições padronizadas, justamente para permitir uma comparação objetiva entre diferentes modelos.
Esses valores, entretanto, não devem ser interpretados como uma previsão exata do consumo que cada motorista obterá no dia a dia, já que o ensaio controlado não reproduz todas as variáveis de uso real.
Há ainda um detalhe técnico pouco conhecido. Nos ensaios padronizados de veículos flex, utiliza-se combustível de referência com composição controlada, e a gasolina de referência historicamente considerada nesses procedimentos contém 22% de etanol anidro, o chamado A22. Isso é relevante porque a gasolina comercial utilizada atualmente no Brasil tem uma proporção maior de etanol em sua composição.
Portanto, a etiqueta do Inmetro continua sendo essencial para comparação entre veículos, mas o desempenho observado pelo consumidor no uso cotidiano pode não reproduzir exatamente os números laboratoriais, reforçando a importância de acompanhar o consumo efetivo do próprio automóvel.
Essa mudança de abordagem também corrige uma simplificação comum. O fato de o etanol possuir menor conteúdo energético por litro e, em geral, proporcionar menor autonomia do que a gasolina não significa automaticamente que ele seja mais caro para rodar. Rendimento e custo são coisas diferentes. Um combustível pode percorrer menos quilômetros por litro e ainda assim apresentar menor custo por quilômetro se seu preço relativo compensar essa diferença.
É justamente por isso que comparar apenas o valor exibido no totem do posto ou aplicar automaticamente os 70% pode levar a uma decisão economicamente inadequada para determinado veículo.
Mas a escolha entre etanol e gasolina também pode ser analisada para além do custo imediato. O etanol é um combustível renovável produzido em larga escala no Brasil e possui papel relevante na redução das emissões do transporte. Segundo a UNICA, quando considerado o ciclo de vida completo, o etanol de cana-de-açúcar pode reduzir em até 90% as emissões de CO₂ em relação à gasolina. Dados mais recentes da entidade também apontam emissões significativamente menores por quilômetro rodado em veículos flex abastecidos exclusivamente com etanol.
Há ainda uma dimensão econômica e estratégica. O etanol movimenta produção agrícola, indústria, logística, pesquisa e tecnologia no país e reduz a necessidade de consumo de combustível fóssil. Quanto maior sua participação na matriz de transportes, maior também o aproveitamento de uma cadeia produtiva na qual o Brasil acumulou conhecimento e escala ao longo de décadas.
Por isso, avaliar o etanol apenas pela relação de preço na bomba significa ignorar parte importante do valor econômico, ambiental e produtivo associado à escolha.
A regra dos 70% teve utilidade e ainda funciona como orientação rápida, mas a decisão mais inteligente hoje é individualizar a conta. Conhecer o consumo real do veículo, calcular o custo por quilômetro e compreender os efeitos mais amplos de cada combustível permite uma escolha muito mais informada.
Valorizar o etanol não significa afirmar que ele será sempre a opção mais barata, significa abandonar decisões automáticas e avaliar corretamente aquilo que cada alternativa entrega, dentro e fora do tanque.



