O etanol brasileiro pode estar prestes a conquistar uma nova fronteira de demanda de grandes proporções: o mercado marítimo nacional. Segundo declarações do CEO da SCA Brasil divulgadas pela Brasil Agro, a adoção de uma mistura de 10% de etanol no combustível bunker utilizado pela navegação no país poderia gerar uma demanda adicional de cerca de 30 bilhões de litros anuais — volume equivalente a mais de dois terços da produção nacional estimada para a safra 2026/27, de aproximadamente 41,9 bilhões de litros.
A cifra coloca o etanol marítimo como um dos temas mais relevantes para o setor sucroenergético nos próximos anos, em um momento em que a indústria busca diversificar mercados e ampliar escalas para além do uso automotivo e da exportação. A navegação, responsável por uma fatia expressiva das emissões globais de carbono, enfrenta pressão crescente por descarbonização, e o etanol surge como alternativa de transição viável, especialmente em rotas de cabotagem e navegação interior.
Regulamentação em discussão
Apesar do potencial, a viabilização do biobunker à base de etanol depende de avanços regulatórios. O Brasil discute atualmente a normatização da mistura de etanol no combustível marítimo, processo que envolve o Ministério de Minas e Energia (MME) e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A definição de mandatos, padrões técnicos, logística de abastecimento em portos e terminais, e a harmonização com normas internacionais de segurança e emissões são etapas essenciais para que a proposta saia do papel.
A discussão ganha corpo em um cenário em que outros biocombustíveis avançados, como o biodiesel marinho e o metanol renovável, também competem por espaço na transição energética do setor naval. O etanol, contudo, possui vantagens competitivas no Brasil: cadeia produtiva consolidada, excedentes estruturais de oferta e infraestrutura logística já existente em diversos portos.
Impacto sobre a oferta e a precificação
Uma demanda de 30 bilhões de litros representaria uma transformação profunda no balanço de oferta e demanda do etanol brasileiro. Para efeito de comparação, o consumo interno de etanol hidratado e anidro somados oscila entre 30 e 35 bilhões de litros, dependendo da competitividade frente à gasolina e das políticas de mistura. A abertura do mercado marítimo poderia, portanto, dobrar a absorção doméstica do biocombustível, com efeitos diretos sobre a precificação, a rentabilidade das usinas e os incentivos ao aumento de capacidade produtiva.
Produtores de etanol, tradings e investidores acompanham de perto o desenrolar das discussões. Caso a regulamentação avance, será necessário planejar investimentos em logística portuária, adaptação de tanques, sistemas de mistura e certificação de qualidade. Portos e terminais, por sua vez, precisarão avaliar a viabilidade técnica e comercial de oferecer o novo combustível, em um mercado historicamente dominado pelo óleo combustível e pelo diesel marítimo.
O que acompanhar nos próximos dias
O avanço ou travamento das discussões no MME e na ANP sobre a regulamentação do biobunker será o principal termômetro da viabilidade desse mercado no curto prazo. Declarações de representantes do setor portuário e de armadores sobre a receptividade à proposta também devem ser monitoradas. Por fim, a reação dos produtores de etanol e associações do setor sucroenergético à perspectiva de uma nova fronteira de demanda poderá indicar o nível de mobilização da cadeia para viabilizar essa oportunidade.



