A capacidade autorizada de biometano no Brasil saltou de 417 mil para 1,37 milhão de metros cúbicos por dia nos últimos anos, um crescimento de mais de três vezes. No entanto, a produção média registrada entre maio e julho permanece em apenas 514 mil m³/dia, pouco mais da metade da meta estabelecida para 2027, que exige produção de 995,2 mil m³/dia. Os dados constam do painel da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e de notas técnicas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) utilizadas nas metas do Ministério de Minas e Energia (MME).

A discrepância entre capacidade instalada e produção efetiva expõe um dos principais gargalos do setor de biometano: a dificuldade de operacionalizar plantas autorizadas. Apesar do avanço regulatório e do crescimento no número de autorizações concedidas pela ANP, o volume produzido ainda não reflete o potencial instalado, segundo informações divulgadas pela Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis).

Obstáculos entre autorização e operação

O descompasso entre capacidade autorizada e produção real revela desafios estruturais que vão além da regulamentação. Entre os principais obstáculos estão a viabilização de contratos de fornecimento de biogás, conexão à infraestrutura de gás natural, acesso a financiamento para conclusão de projetos e dificuldades logísticas para escoamento do produto. Muitas plantas autorizadas ainda não iniciaram operação comercial ou operam com capacidade ociosa significativa.

A meta de 2027 estabelecida pelo MME, com base em estudos da EPE, considera a necessidade de ampliação da oferta de biocombustíveis gasosos no país e a contribuição do biometano para a descarbonização da matriz energética. A consulta pública aberta pelo MME utiliza esses dados para embasar políticas futuras de incentivo à produção e comercialização do combustível renovável.

Impactos para produtores e investidores

Para produtores de biometano e investidores do setor, o cenário aponta para a necessidade de maior atenção aos fatores que impedem a conversão de capacidade autorizada em produção efetiva. A diferença de quase 860 mil m³/dia entre capacidade e produção representa oportunidades não realizadas e capital imobilizado em plantas que não atingem seu potencial operacional.

O setor de resíduos e economia circular, principal fornecedor de matéria-prima para biometano, também é afetado. A baixa operacionalização das plantas reduz a demanda por biogás de aterros sanitários, biodigestores agroindustriais e estações de tratamento de efluentes, limitando a monetização de resíduos orgânicos.

O que acompanhar nos próximos dias

A evolução da produção mensal de biometano será indicador-chave para avaliar se o Brasil conseguirá atingir a meta de 2027. O comportamento das plantas autorizadas que ainda não produziram volume relevante deve ser monitorado de perto, assim como eventuais mudanças regulatórias ou incentivos que possam resultar da consulta pública do MME. O impacto de políticas futuras sobre a viabilização de projetos e a conexão de novas plantas à rede de gás natural também devem estar no radar de executivos e investidores do setor.