O Brasil produz apenas 1,36 milhão de metros cúbicos de biometano por dia, volume que representa cerca de 1% do potencial estimado de 120 milhões de m³/dia, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira do Biogás (Abiogás) durante evento promovido pela NovaCana e GLOBO Rural. O abismo entre a produção realizada e a capacidade técnica disponível coloca em evidência o principal gargalo do setor: a regulamentação e emissão do Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB), apontado pela entidade como peça-chave para destravar novos investimentos.

Os números apresentados pela Abiogás revelam que 21 unidades encontram-se em operação no país, mas a capacidade autorizada já alcança patamares superiores. Com 47 projetos autorizados, a produção potencial salta para 3,37 milhões de m³/dia, o que representa quase 2,5 vezes o volume atualmente gerado. Esse descompasso entre autorizações concedidas e plantas efetivamente em funcionamento sinaliza que a viabilidade técnica e regulatória dos projetos avançou, mas a conversão em ativos operacionais ainda esbarra em obstáculos de ordem econômica e institucional.

CGOB como vetor de investimentos

A certificação de origem do biometano emerge como instrumento central para atrair capital ao setor. O CGOB permite rastrear e atestar a origem renovável do combustível, habilitando sua comercialização em mercados que valorizam atributos de descarbonização e cumprimento de metas ESG. Sem o certificado em plena operação, compradores corporativos e distribuidoras enfrentam dificuldades para validar contratos de longo prazo, o que reduz a previsibilidade de receita necessária para viabilizar financiamentos de grande porte.

O setor de biometano depende de fluxos de caixa estáveis para justificar investimentos em plantas de purificação, compressão e injeção em redes de distribuição ou uso veicular. A ausência de um marco regulatório consolidado para a certificação limita o apetite de fundos de infraestrutura, tradings e grupos industriais que buscam segurança jurídica e garantias de liquidez para seus contratos de suprimento.

Contexto de mercado e impactos para o ecossistema

O potencial de 120 milhões de m³/dia estimado pela Abiogás considera a disponibilidade de resíduos agroindustriais, efluentes urbanos, resíduos sólidos urbanos e dejetos de animais em escala nacional. A exploração desse volume colocaria o Brasil entre os principais produtores globais de biometano, com impactos diretos sobre a substituição de diesel em frotas de transporte, o abastecimento de redes de gás natural e a geração distribuída de energia térmica e elétrica.

Para produtores, tradings e investidores, a evolução da capacidade autorizada para 3,37 milhões de m³/dia demonstra que a cadeia técnica está estruturada e que a demanda reprimida existe. A lacuna regulatória em torno do CGOB, portanto, representa o principal risco de atraso na monetização desses ativos. A entrada em operação das 47 unidades autorizadas dependerá da clareza sobre critérios de certificação, prazos de emissão e validade dos certificados, além da integração com sistemas de comercialização de energia e combustíveis.

O que acompanhar nos próximos dias

Investidores e executivos devem monitorar a evolução da regulamentação do CGOB, incluindo prazos para consultas públicas, resoluções da ANP e diretrizes do Ministério de Minas e Energia. Movimentos de compradores corporativos, distribuidoras e grandes consumidores de gás natural que sinalizem interesse em contratos de biometano certificado podem acelerar a implantação de novas plantas. Também merece atenção o avanço dos 47 projetos autorizados rumo à fase de construção e operação, bem como anúncios de novos pedidos de autorização que reflitam a confiança do setor na superação dos gargalos regulatórios.