A discussão pública costuma ser resumida ao “fim da escala 6×1”, mas, para o setor sucroenergético, o ponto mais sensível é outro: a proposta em debate no Senado reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, estabelece dois dias de repouso por semana e preserva os salários.

O texto ainda prevê possibilidade de compensação de horários, negociação coletiva e regimes diferenciados por lei, portanto o efeito final sobre cada operação dependerá da forma como essas regras forem regulamentadas e negociadas. Ainda assim, para atividades de funcionamento contínuo, a simples redução da quantidade de horas disponíveis por trabalhador já impõe uma pergunta concreta: quem vai cobrir as horas que deixarem de estar disponíveis?

Essa questão pesa especialmente nas usinas porque a operação durante a safra não funciona como um escritório que pode simplesmente encerrar o expediente e retomar dois dias depois. Colheita, transporte, recepção da cana, moagem, fermentação, destilação, cogeração de energia, manutenção e laboratório precisam funcionar de forma coordenada e, em muitas etapas, continuamente.

É por isso que o setor já utiliza diferentes modelos de jornada e revezamento, como escalas 5×1, turnos fixos e turnos de revezamento, definidos conforme a atividade e, muitas vezes, por instrumentos coletivos. A própria base do Ministério do Trabalho registra acordos no setor com regimes 5×1, 6×1 e revezamentos em dois ou três turnos justamente para sustentar a operação ao longo dos sete dias da semana.

Por isso, dizer que basta “trocar a escala” simplifica demais o problema. Se uma função hoje é coberta por determinada quantidade de trabalhadores e a jornada máxima semanal disponível for reduzida, essa cobertura precisa ser recomposta de alguma forma.

Pode ser por reorganização das equipes, ganho de produtividade, automação, negociação de jornadas dentro dos limites legais ou, em determinadas atividades, aumento do quadro. A conta matemática mostra a dimensão do desafio: uma redução de 44 para 40 horas representa cerca de 9,1% menos horas semanais por trabalhador.

Se uma operação precisasse repor integralmente essa diferença apenas por contratação, a necessidade adicional se aproximaria de 10% do quadro afetado. Isso não significa que todas as usinas contratarão 10% mais pessoas, mas mostra por que o tema não pode ser tratado como uma simples mudança de calendário.

É aí que aparece um dos maiores gargalos do setor: encontrar essas pessoas. Muitas unidades sucroenergéticas estão localizadas em municípios do interior, distantes dos grandes centros onde se concentra boa parte da oferta de profissionais especializados.

E o desafio não é apenas encontrar “mais trabalhadores”, mas encontrar operadores industriais, mecânicos, eletricistas, instrumentistas, técnicos agrícolas, motoristas, profissionais de manutenção e outras funções que exigem conhecimento específico e tempo de formação. A dificuldade de contratação já aparece como uma preocupação concreta do setor e de outras atividades agroindustriais intensivas em operação contínua.

Uma objeção frequente nesse debate é que bastaria pagar salários maiores para atrair trabalhadores. Remuneração importa e empresas precisam competir por mão de obra, mas ela não resolve sozinha uma limitação estrutural de oferta. Não se forma um eletricista industrial, um instrumentista ou um operador experiente de processo apenas elevando o salário de uma vaga.

Em muitas regiões, é preciso formar pessoas, criar cursos, desenvolver profissionais internamente e competir com outras empresas pela mesma mão de obra disponível. O setor já convive há anos com a necessidade de qualificação e requalificação decorrente da mecanização, da automação e da crescente complexidade das operações.

Outra resposta comum é que a automação deveria compensar a redução de mão de obra. Ela certamente será parte da solução e tende a ganhar ainda mais importância, mas automação não significa ausência de pessoas.

Quanto mais tecnológica se torna a usina, maior também a necessidade de profissionais capazes de operar, programar, monitorar e manter sistemas complexos. Além disso, investimentos em automação exigem capital e tempo de implantação, e não são igualmente aplicáveis a todas as funções. Portanto, produtividade, tecnologia e qualificação precisam entrar na discussão, mas não eliminam automaticamente o problema de cobertura das jornadas.

Há também o impacto econômico. Se a jornada for reduzida sem redução salarial, o valor da hora trabalhada aumenta nas funções efetivamente atingidas. Caso a empresa também precise contratar novos profissionais, ampliar horas extraordinárias dentro dos limites legais ou investir em automação para manter a mesma produção, haverá uma pressão adicional sobre os custos.

Isso ocorre num momento em que o setor já enfrenta margens pressionadas por fatores como preços do açúcar e do etanol, juros, clima e aumento dos custos de produção. A discussão, portanto, não precisa ser transformada numa oposição entre condições de trabalho e sustentabilidade empresarial; o desafio é encontrar um desenho que consiga conciliar os dois lados.

Também é importante reconhecer o argumento do trabalhador. A redução da jornada pode representar mais descanso, melhoria da qualidade de vida e uma reorganização necessária das relações de trabalho. Ignorar esse lado tornaria o debate incompleto. Mas reconhecer esses benefícios não elimina a necessidade de discutir como setores de operação contínua conseguirão implementá-los na prática.

A própria proposta em tramitação admite compensações por negociação coletiva e possibilidade de regimes diferenciados, justamente porque atividades distintas possuem realidades diferentes.

O ponto central para o setor sucroenergético, portanto, não é simplesmente ser contra ou a favor do fim da escala 6×1. É se preparar para uma eventual redução da jornada semanal, entender quais funções serão mais afetadas, mapear a disponibilidade de mão de obra, investir em formação, rever processos, avaliar automação e discutir modelos de escala que preservem tanto as condições de trabalho quanto a continuidade operacional.

Se a mudança vier, o maior risco não será apenas ter menos horas disponíveis. Será precisar de mais gente justamente onde essa gente já é difícil de encontrar.

Foto de Milena Rocha
Setor Sucroenergético
Milena Rocha
Gestão e Operação Industrial

Executiva do Setor Sucroenergético. Analisa os desafios da indústria a partir da experiência de quem vive a operação.

@milenarochaoficial