O Conselho de Administração da Petrobras aprovou a decisão final de investimento (FID) de aproximadamente US$ 1,2 bilhão para a construção de uma planta de bioquerosene de aviação (bioQAV) e diesel renovável na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão (SP). O anúncio, feito pela companhia em seu canal oficial, representa o maior investimento individual da estatal em biocombustíveis avançados e posiciona a empresa como player relevante no mercado de combustíveis sustentáveis para aviação.

A nova unidade terá capacidade projetada de até 15 mil barris por dia de combustíveis renováveis, com início de operação previsto para 2030. As obras devem começar até o final de 2026, conforme informado pela Petrobras. O projeto integra o plano estratégico 2026–2030 da companhia e responde a dois vetores regulatórios centrais: a Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024, e o programa CORSIA (Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation), que estabelece metas de redução de emissões para o setor aéreo global.

Contexto estratégico e posicionamento de mercado

A decisão da Petrobras ocorre em momento de aceleração global da demanda por combustíveis de aviação sustentáveis (SAF, na sigla em inglês). Com mandatos de mistura crescentes na Europa e nos Estados Unidos, e compromissos voluntários das principais companhias aéreas, o mercado de bioQAV deve crescer de forma exponencial nos próximos anos. A planta da RPBC colocará o Brasil entre os países produtores em escala industrial do combustível, aproveitando a infraestrutura logística e de refino já existente.

O investimento também sinaliza uma inflexão na estratégia da Petrobras em relação à transição energética. Historicamente focada em petróleo e gás, a estatal passa a alocar capital significativo em ativos de baixo carbono, movimento que pode influenciar a percepção de investidores institucionais e fundos ESG sobre a companhia. A magnitude do aporte — superior a US$ 1 bilhão — coloca o projeto entre os maiores da América Latina na categoria de biocombustíveis avançados.

Impactos setoriais e regulatórios

A entrada da Petrobras no segmento de bioQAV tende a reconfigurar a dinâmica competitiva no setor de biocombustíveis brasileiro. A capacidade de 15 mil barris/dia equivale a cerca de 750 milhões de litros por ano, volume que poderá atender parte relevante da demanda doméstica e abrir frentes de exportação. A integração com a infraestrutura da RPBC também oferece vantagens logísticas, com acesso direto a terminais portuários e malha de distribuição.

Do ponto de vista regulatório, o projeto alinha-se aos objetivos da Lei do Combustível do Futuro, que prevê metas progressivas de descarbonização para o setor de transportes. A produção de diesel renovável, em paralelo ao bioQAV, amplia o portfólio de baixo carbono da companhia e pode gerar créditos de descarbonização (CBIOs), criando novas fontes de receita e fortalecendo a posição da Petrobras no mercado de carbono regulado.

O que acompanhar nos próximos dias

A estrutura de financiamento do projeto ainda não foi detalhada pela Petrobras. Será importante observar se haverá participação do BNDES ou de outros bancos de desenvolvimento, assim como eventuais parcerias com fundos de infraestrutura ou investidores privados especializados em energia renovável. A modalidade de captação e as condições de crédito podem influenciar a viabilidade econômica e o cronograma de execução.

Outro ponto de atenção é o processo de licenciamento ambiental, que pode envolver prazos e requisitos específicos, dado o porte do empreendimento e sua localização em área industrializada. Por fim, o mercado aguarda sinais sobre a estratégia de fornecimento de matéria-prima — se a Petrobras firmará contratos de longo prazo com produtores de óleos vegetais ou resíduos, e como isso afetará a cadeia de suprimentos de biocombustíveis no país.