Um relatório divulgado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) identificou cerca de 15 projetos de produção de combustível sustentável de aviação (SAF) em desenvolvimento no Brasil, todos ainda em estágios iniciais. Nenhum deles alcançou a fase de operação comercial em escala, segundo o levantamento. O mapeamento oferece a primeira visão consolidada do grau de maturidade da cadeia brasileira de SAF e sinaliza que o país avança na estruturação de uma indústria que ainda precisa superar etapas técnicas, regulatórias e de investimento.
O documento da USDA não detalha quais empresas lideram os projetos, mas confirma que as iniciativas estão distribuídas entre diferentes estágios de planejamento, estudos de viabilidade e desenvolvimento técnico. A ausência de plantas em operação comercial reforça que a produção de SAF no Brasil permanece em fase de estruturação, com barreiras que vão desde a definição de matérias-primas até a obtenção de certificações internacionais e financiamento de longo prazo.
Indicadores de maturidade da cadeia
O número de projetos em andamento mostra que o Brasil despertou interesse de agentes do mercado para a produção de SAF, impulsionado pela disponibilidade de biomassa, capacidade industrial instalada no setor de biocombustíveis e pressão global por descarbonização do transporte aéreo. Contudo, a concentração em fases iniciais indica que a maior parte das iniciativas ainda depende de decisões de investimento, validação de rotas tecnológicas e adequação a padrões de certificação como ASTM e CORSIA.
A escolha de matérias-primas representa um dos principais pontos de definição para esses projetos. O Brasil dispõe de opções diversas, incluindo óleos vegetais, gorduras residuais, etanol e biomassa lignocelulósica, cada uma com implicações distintas sobre custos, logística e pegada ambiental. A viabilidade econômica de cada rota tecnológica depende também do acesso a mercados qualificados, que exigem rastreabilidade, conformidade ambiental e comprovação de redução de emissões ao longo do ciclo de vida.
Obstáculos para a operação comercial
A ausência de plantas operacionais reflete os desafios enfrentados por projetos de SAF em mercados emergentes. Além do custo elevado de capital para instalações industriais, a produção de combustível de aviação exige integração com infraestrutura de distribuição, contratos de longo prazo com companhias aéreas e garantias de fornecimento contínuo. A regulação nacional ainda está em construção, e a harmonização com padrões internacionais é condição para que o SAF produzido no Brasil seja aceito em operações globais.
Outro fator relevante é o prazo para maturação dos projetos. Iniciativas em estágios iniciais podem levar anos até a entrada em operação, dependendo da captação de recursos, licenciamento ambiental, construção de unidades industriais e testes de conformidade. O relatório da USDA não especifica cronogramas, mas o volume de projetos sugere que o país pode ver as primeiras plantas comerciais nos próximos anos, desde que superadas as barreiras técnicas e financeiras.
Contexto de mercado e competição internacional
O levantamento da USDA ocorre em um momento de expansão global da oferta de SAF, com Estados Unidos, Europa e Ásia ampliando capacidade instalada e estabelecendo mandatos de mistura. O Brasil compete por investimentos em um cenário onde a disponibilidade de matéria-prima renovável é vantagem, mas a falta de marco regulatório consolidado e de infraestrutura de certificação pode retardar a entrada no mercado.
A identificação de 15 projetos coloca o país entre os mercados emergentes com maior número de iniciativas em desenvolvimento, mas a ausência de operação comercial limita a participação brasileira no fornecimento internacional de SAF. Empresas que atuam no setor de etanol, biodiesel e bioquerosene acompanham de perto a evolução regulatória e as condições de financiamento, com expectativa de que o país consiga converter parte desses projetos em capacidade produtiva nos próximos anos.
O que acompanhar nos próximos dias
A divulgação do relatório da USDA deve estimular a identificação pública dos projetos em andamento, com empresas e desenvolvedores detalhando matérias-primas, rotas tecnológicas e prazos para operação comercial. A evolução do marco regulatório brasileiro para SAF, incluindo definições sobre certificação, incentivos fiscais e metas de mistura, será determinante para a viabilidade econômica das iniciativas mapeadas. O acompanhamento de anúncios de investimento, parcerias com companhias aéreas e avanços em licenciamento ambiental deve indicar quais projetos têm maior probabilidade de sair do papel e iniciar produção em escala nos próximos anos.



