A Maersk iniciou em outubro de 2025 uma série de testes com blend de etanol brasileiro em motor a metanol no navio Laura Maersk, conforme revelado por relatório do Ministério de Minas e Energia (MME) sobre o Grupo de Trabalho de Combustível Aquaviário Sustentável (GT-RCNPE-05). Os ensaios, que começaram com mistura de 10% de etanol e 90% de metanol (E10), já avançaram para blend E50 e incluem planos para testar E100, consolidando o etanol marítimo como alternativa renovável na indústria naval global.

O documento do MME indica que os resultados iniciais têm sido promissores, sinalizando a viabilidade técnica da utilização de etanol em motores projetados originalmente para metanol. A iniciativa representa um marco na validação internacional do etanol brasileiro como combustível marítimo renovável, setor que busca alternativas para cumprir metas de descarbonização estabelecidas pela Organização Marítima Internacional (IMI).

Estrutura dos testes e evolução dos blends

A estratégia da Maersk segue uma abordagem progressiva, iniciando com blend E10 com metanol para avaliar compatibilidade e desempenho operacional. A segunda fase, com E50 já em andamento, eleva significativamente a proporção de etanol na mistura, testando limites de adaptação dos motores e sistemas de injeção. A meta final, com E100, permitirá avaliar a operação integral com etanol puro, eliminando completamente a dependência de metanol.

O navio Laura Maersk, equipado com motor dual-fuel capaz de operar com metanol e combustíveis tradicionais, serve como plataforma de validação para essa transição tecnológica. A escolha do etanol brasileiro para os testes reflete tanto a competitividade da cadeia sucroenergética nacional quanto o interesse da indústria marítima em fontes renováveis com balanço positivo de carbono.

Impactos para a cadeia de biocombustíveis marítimos

A validação técnica do etanol em motores marítimos abre caminho para a criação de demanda estrutural no setor naval, que movimenta volumes significativamente maiores que a aviação. Para produtores brasileiros, representa oportunidade de diversificação de mercados e ampliação da escala de produção, especialmente em usinas com capacidade excedente ou projetos dedicados a exportação.

A iniciativa também impulsiona discussões regulatórias no Brasil. O relatório do MME sobre o GT-RCNPE-05 Combustível Aquaviário Sustentável indica que o governo acompanha o desenvolvimento de marcos normativos para certificação e logística de abastecimento de biocombustíveis em portos nacionais, infraestrutura ainda incipiente comparada ao modal rodoviário.

Posicionamento estratégico da Maersk

A Maersk, uma das maiores operadoras de transporte marítimo do mundo, tem adotado estratégia agressiva de descarbonização de sua frota. A empresa já encomendou navios movidos a metanol verde e agora testa a viabilidade de etanol e blends, ampliando o portfólio de combustíveis renováveis disponíveis. A escolha de testar múltiplas concentrações de blend reflete cautela operacional e busca por dados robustos antes de decisões de escala.

Para a indústria marítima brasileira, o projeto representa sinal concreto de que armadores internacionais consideram o etanol nacional como opção viável, desde que infraestrutura portuária e certificações evoluam em paralelo.

O que acompanhar nos próximos dias

Produtores e tradings devem observar se a Maersk divulgará resultados consolidados da fase E50 e cronograma para início dos testes com E100. A eventual publicação de dados de desempenho e emissões pode acelerar adesão de outros armadores e estimular investimentos em infraestrutura portuária no Brasil. Também merece atenção a movimentação do MME e da Agência Nacional do Petróleo (ANP) na construção de arcabouço regulatório específico para combustível marítimo renovável, incluindo especificações técnicas e mecanismos de rastreabilidade. Por fim, a reação de produtores nacionais de etanol, especialmente aqueles voltados para exportação, pode indicar interesse em contratos de fornecimento de longo prazo para o segmento marítimo.